A Cartilha de uma Jovem Garota em Como Alcançar a Classe Ociosa

por Valerie Solanas

Sendo recém-saída da universidade eu me encontrei no dilema tipicamente feminino de trinchar por mim mesma num mundo masculino um modo de vida apropriado para uma garota de bom gosto, cultura, e sensibilidade. 

Não deve haver nada grosseiro como trabalho. No entanto, uma garota precisa sobreviver. Então, após uma fria avaliação do cenário social eu finalmente encontrei uma excelente ocupação remunerada, desafiadora à engenhosidade, que permite lidar em seus próprios termos com as pessoas e proporciona independência, horários flexíveis, ótima estabilidade e o mais importante, uma grande quantidade de tempo livre, uma ocupação altamente apropriada às sensibilidades femininas.

Eu contemplo minha boa sorte assim que começo o trabalho do dia: 

– “Com licença, senhor, você tem quinze centavos?”

– “Claro, querida, aqui.”

É meu corpo selvagem – fisga eles quase todas as vezes.

– “Com licença, senhor, você tem quinze centavos?”

 Não.”

 Tem dez?” Você tem de continuar chateando-os.

 Não.”

 Cinco?”

 NÃO!”

 Uma nota de dólar?” Pense grande.

– “Aqui, tome vinte cinco centavos.”

Se soma rápido. Quatro e cinquenta uma hora. Duas horas e eu posso cair fora e escrever.

– “Com licença, senhor, você tem quinze centavos?”

 Não.”

 Tem dez?” 

 Não.”

 Cinco?”

 NÃO!”

 Um dólar?”

(Cedendo) – “Aqui, tome vinte cinco centavos.”

Eu guardo os vinte e cinco centavos. Uma conhecida aparece:

– “Ei, Val, tem dez centavos?”

 Cai fora, sua trapaceirazinha desgraçada.” 

“Com licença, senhor, você tem quinze centavos?”

 Sim, mas não pra você.”

 Você se interessa por palavrões?” Eu tenho uma esquina no mercado de palavrões.

– “Vamos lá, quinze centavos por uma palavra suja.”

 Aqui, quinze centavos. Me diga a palavra suja.”

 Homens.” 

“Que tal outra?”

“Com licença, senhor, você tem quinze centavos?” Eu não digo que é para transporte, a menos que perguntem; a preciosidade do meu tempo exige brevidade.

 “O que eu ganho por quinze centavos?

 “Que tal um palavrão?

 “Essa não é uma compra ruim. Okay, aqui. Agora me dê a palavra.

 “Homens.

“Querida, você se interes…”

 Policial! Essa garota! Ela tá mendigando!”

 Se eu pegar você mendigando mais uma vez na Sexta Alameda vou colocá-la no xadrez.”

 Okay, vou me mover pra Praça Sheridan e pedir em frente ao Jack Delaney’s.”

– “Com licença, senhor, você tem quinze centavos?”

 Eu tenho muito mais do que quinze centavos.”

 Maravilha! Então você pode pagar meu jantar.”

Levo-o ao Jack Delaney’s rapidamente, antes que ele tenha alguma chance de protestar.

 Desculpe, mas nós não servimos mendigos aqui.”

 Prejuízo seu, gordo imbecil; eu sou uma grande comedora.”

Então nós vamos comer na Blue Mill Tavern. São três quarteirões, mas eu o mantenho falando e andando rápido, e ele ainda estará intacto quando chegarmos lá.

 Você é uma Lésbica?”

 Sim.”

 Diga me o que vocês Lésbicas fazem?”

 Bem, primeiro nós….”

 É?”

 Então nós….”

 Éééé?”

 E aí nós….”

Os olhos dele estão vidrados: – “ÉÉÉÉ? Ei, isso eu gostaria de ver.”

 Por vinte e cinco paus cada eu acho que posso providenciar isso.” Dirijo-me à Sexta Alameda e à Oitava Rua. “Ei, Gwen….”

Quarto para três no Hotel Earle. Esse é um de preço baixo – olha e bate uma; poupa vinte e cinco paus adicionais.

Três dias livres, então de volta ao trabalho.

– “Com licença, senhor, você tem quinze centavos?”

 No entiendo.”

 Tiene usted quince centavos?” Poucos podem escapar.

 É, eu acho que sim. Tome.”

Aí vem aquele velho desamparado:

– “Diga, moça, você poderia me ajudar? Tudo o que eu preciso são de sete centavos pra comprar minha bebida.”

 Seu mentiroso desgraçado, você não quer uma bebida; tá juntando dinheiro pra fundo mútuo de investimento.”

“Com licença, garotinho, você tem quinze centavos?”

 Desculpe, senhora, tudo o que eu tenho são vinte e cinco centavos.”

 Com licença, senhor, você tem quinze centavos?”

 Diga-me onde há algumas garotas e eu te dou um dólar.”

 Okay, dê-me o dólar.”

 Aqui.”

 Há garotas por toda a rua. Até mais.”

Eu passo por um orador de calçada. Ouço um pouco. Um socialista. Ouço por um tempo, então saio, continuando a fazer minha parte para realizar o socialismo, permanecendo fora do mercado de trabalho. Mas primeiro algumas aquisições do 5 & 10, já que é bem aqui. Eu entro, considerando o que mais eu, como uma mulher, posso fazer pelo meu país – roubar em lojas.

Eu peço no caminho de casa com as mercadorias, então peço até a Rua Bleecker.

– “Com licença, senhor, você tem quinze centavos?”

 Em troco?”

 Se você preferir em cédulas, tudo bem por mim.”

 Eu vou querer alguma coisa pelas cédulas.”

 Então dê-me só quinze centavos.”

 Não, espere um minuto, talvez nós podemos fazer um acordo.”

 Dê-me quinze centavos, ou eu tô saindo.”

 Okay, aqui tão os quinze centavos. Agora, espere um minuto; não vá.”

 Olha, meu tempo é valioso. Ficar aqui falando com você vai me custar quatro e quarenta e cinco a hora.”

 Então dê-me quinze minutos por um dólar e treze.”

 Okay, adiante. Agora, sobre o que você quer falar?”

 Onde eu consigo uma garota?”

 Por dez paus eu te apresento a uma.”

 Isso é tudo? Só dez paus?”

 Esse é o meu preço pra a apresentação. Então você terá que negociar com ela. Vamos lá, essa garota é um nocaute…… Ei, Mary Lou….”

“Com licença, senhor, você tem quinze centavos?”

 Pra quê?”

 Passagem de metrô.”

 Por que você não pede a um tira?”

 Eu pedi. Ele disse pra eu pedir a você.”

 Aqui.”

Aquela garota entregando anúncios para uma conferência parece estar entregando-os somente aos homens. Eu sigo-a por um tempo e vejo. Sim, é exatamente isso o que ela está fazendo.

– “Diga, moça, por que você tá entregando esses cartazes somente aos homens?”

 Eu estava? Eu nem tinha percebido. Instinto, eu acho. Eu não tenho muitos desses, e essa conferência é um tanto intelectual, sabe, então eu entrego àqueles que…bem… sabe, parecem intelectuais.”

Eu devo admitir que estou impressionada ela foi lindamente programada.

– “Com licença, senhor, você tem quinze centavos?”

 Você é uma daquelas vagabundas na sua idade? Saia daqui antes que eu chame um policial.” Eu deveria saber bem antes de me aproximar de velhos extravagantes.

– “Val, consegue um freguês pra mim, vai? Eu tava caçando nos bares e não há um freguês à vista.”

 O que você quer dizer? Os bares tão lotados de caras.”

 É, mas nenhum deles vem falar comigo eles são tímidos.”

 Então fale com eles.”

 E ser expulsa? O quê? Você tá brincando?”

 Então fique na frente dos bares. Aborde-os às quatro quando eles estão fechando; eles vão cambalear pra fora, completamente bêbados e excitados, e lá estará você Senhorita Última Chance.”

 Aaaah, estou farta de fazer programas. Dinheiro, eu odeio dinheiro. Por que nós temos que precisar de dinheiro? Ei, por que eu não posso pedir com você?”

 Por que você não pede por si mesma?”

 Oh, eu nunca poderia fazer isso sozinha.”

 Como nós duas faremos isso?”

 Nos aproximaremos de um cara juntas e você pede a ele trinta centavos.”

 Nah, eles sabem que nós duas não perdemos nossas passagens. Além disso, eu costumo conseguir trinta, de qualquer maneira, e além disso, você vai me atrasar e só estragar meu ato. Eu vou lhe dizer o que fazer eu vou pedir aqui e você pede do outro lado da rua.”

 Mas o que eu vou fazer?”

 Só peça-os quinze centavos.”

 Mas e se eles recusarem?”

 Você pede a mais uns caras. Olha, peça a esse cara que tá vindo agora.”

 Ah, ele não daria pra mim.”

 Como você sabe?”

 Eu apenas sei. Eu vou abordar aquele cara usando um terno.”

 Não significa nada, mas vá em frente, aborde-o.”

 Uh, você tem quin… Ele continuou andando; nem sequer reparou em mim.”

 Siga-o! Aborreça-o! Aborreça-o!”

 Ah, isso não adiantaria nada. Deixe-me tentar esse que tá vindo.”

Ela se aproxima de um cara acompanhando uma mulher: “Você tem quinze centavos?”

 Desculpe.”

– “Tony, há tanta escória por aqui.”

 Não aborde um cara com uma garota. Como ele vai deixar ela saber que ele é um condenado?”

 Vou tentar esse cara: Você tem quinze centavos?”

 Não, desculpe.”

 Venda-o um palavrão.”

 Quem diabos vai comprar um palavrão?”

 Olha, por que você não apenas cai fora? Você tá me fazendo perder dinheiro.”

A garota é uma incompetente e vai acabar em um emprego.

– “Com licença, senhor, você tem quinze centavos?”

 Por que você tá me abordando? Eu pareço com um turista? Deve ser esse terno suburbano que estou vestindo.”

 Não, você parece um especialista em conversa. Quer comprar uma hora por seis paus?”

 Hora de quê?”

 Conversa.”

 Eu posso falar sobre qualquer coisa?”

 Qualquer coisa.”

 Qualquer coisa?”

 Qualquer coisa.”

 Até sexo?”

 Até isso, e por quatro paus adicionais eu faço ilustrações no guardanapo.”

 Seis paus, huh? Okay, onde nós vamos pra essa conversa?”

 Um restaurante; você tem que me pagar o jantar enquanto conversamos.”

 Que tal o Feejon’s bem aqui?”

 Não dá – eles não servem mendigos aí.”

 Diga, posso lhe fazer uma pergunta pessoal? Você é uma Lésbica?”

 Sim, por quê?”

 Você se importaria de me dizer o que vocês Lésbicas fazem?”

 Bem, primeiro nós….”

 É?”

 Então nós….”

 Ééé?”

 E então….”

Os olhos dele estão vidrados: – “ÉÉÉÉÉ? Ei, isso eu gostaria de ver.”

 Por vinte e cinco paus eu acho que posso providenciar isso.” Dirijo-me à Sexta Alameda e à Rua Oito.

“Ei, Mary Lou….” Quarto para três no Hotel Earle.

Não vou tirar amanhã de folga, apesar da boa noite de hoje. Não posso – preciso de roupas de inverno. Mas vou ser breve, sem desperdício de tempo. Eu peço no caminho de casa, planejando a agenda da próxima noite: pedir por aí, seis paus pela oportunidade de chatear, mastigar um lanche rápido, então ir pra casa. Acho que vou comer no Lindy’s amanhã.

Eu peço no meu caminho para o metrô, saio na Quinquagésima Rua, e peço até o Lindy’s. Há um freguês olhando de soslaio ali fora, pronto e esperando. Como ele sabe que eu estaria aqui?

 “Com licença, senhor….”

Eu peço no meu caminho de volta ao Village.

 “Com licença, senhor, você tem quinze centavos?”

 Ei, quão longe você foi na escola?”

 Isso é conversa. Eu cobro seis paus a hora por isso.”

 Você é daqui?”

 Isso é conversa.”

 Ah, vamos lá. Só me diga – onde tem uma festa?”

 Isso é conversa.”

 Okay, Okay, tome.” Saio para um outro encontro espirituoso com a brilhante, inventiva mente masculina.

– “Com licença, senhor, você tem quinze centavos?”

 Eu nunca fui abordado por uma mendiga antes, então acho que você merece alguma coisa. Aqui estão cinquenta centavos.”

Ali estão Betsy e Eileen se agarrando e se beijando como de costume.

– “Vocês duas nunca fazem qualquer outra coisa?”

– “Cara, o que há mais nesse lugar a se fazer?”

– “Tony, mais escória. Elas estão por todos os lugares.”

Eu peço ao longo das mesas do pátio externo do Granado’s e ao redor do quarteirão. Esse serviço oferece vastas oportunidades para viagens – várias e várias vezes em volta da quadra. E pensar que algumas garotas se contentam com a Europa.

– “Com licença, senhores, vocês têm quinze centavos?”

 Lóoogico, aqui estão vinte e cinco centavos. Dê à garota vinte e cinco centavos, Pete. Dê à ela vinte e cinco, Joe. Agora diga-nos onde está a ação?”

 Eu sou a ação.”

 Bem, então vamos.”

 Esperem. Eu tenho que comer primeiro, e se vocês querem falar comigo enquanto eu como são seis paus a hora.”

 Então dizer o que só nos diga onde há um bom ponto.”

 Por três dólares cada eu mostro a vocês um ponto fora-desse-mundo, simplesmente inacreditável. As garotas estão lá! Uuuuuh, as garotas sujas estão lá!!!”

 ÉÉÉ!! Sabe, Pete, isso só pode valer três dólares cada.”

* N.T. (Artigo não-ficcional publicado na revista Cavalier em 1966).

06/02/2010 at 21:40 Deixe um comentário

Up Your Ass

Títulos alternativos para Up Your Ass (Vai Tomar no Cu) eram “Do Berço ao Barco”, “A Grande Chupada” e “A Partir da Lama”.

dedicatória:

“Eu dedico esta peça a Mim;
uma fonte contínua de força e orientação, e sem cuja lealdade inabalável, devoção e fé, esta peça jamais poderia ter sido escrita.

Agradecimentos adicionais:

Eu Mesma
Por revisão, comentário editorial, dicas úteis, criticismo e sugestões e um excelente trabalho de datilografia.
Eu

por pesquisa Independente acerca de homens, mulheres casadas e outros degenerados.”

por Valerie Solanas

Tempo: Esta tarde.

Lugar: Uma calçada em uma cidade grande norte-americana.

Bongi Perez.
Vestida em calças cáqui, uma jaqueta xadrezada berrante e tênis, ela está caminhando ociosa do lado de fora da escada do prédio onde vive, próximo a um restaurante elegante com um pátio.
Passa uma mulher jovem.

Bongi: Oi, Linda.

(A mulher a ignora.)

Bongi: Cadela convencida.

(Uma segunda garota passa.)

Bongi: Oi, Maravilhosa.

(A mulher vira o rosto e continua seguindo adiante.)

Bongi: Minha nossa. Mas nós não somos as bundas de primeira qualidade? Você tem uma boceta por Dior?

(Uma terceira garota passa pela calçada. Bongi bloqueia o caminho dela. A garota move-se para o lado tentando ultrapassar Bongi, mas Bongi a acompanha, ainda a bloqueando. A garota move-se para o outro lado, mas novamente Bongi bloqueia sua passagem.)

Bongi: Dê-me um beijo que eu deixo você passar.

Garota (chamando em irritação lamuriosa seu acompanhante que estava alguns passos atrás): Morton, esta garota, ela não me deixa passar.

Morton (aproximando-se): Vamos, vamos, Garota, deixe-a passar.

Bongi: Ei, o herói chega para o resgate.

(Ela continua a bloquear o caminho da garota.)

Morton: Se é essa a sua idéia de humor, deixe-me assegurá-la que isso não tem graça. (Ele empurra Bongi para o lado.)

Bongi: Uuuh, você é tão grande e forte, Morton.

(Ele e a garota dão passos largos e pomposos subindo a rua.)

Bongi (berrando atrás deles): Ela é toda sua, herói; ela realmente não é meu tipo.

(Bongi retoma seu assento no degrau. Então ela nota alguém que ela conhece se aproximando pela rua.)

Bongi (gritando): Miss Collins. Oi, Miss Collins.

(Miss Collins, um drag queen com maquiagem pesada, de aparência maliciosa, aparece.)

Miss Collins: Olá, Anjo. (Ele a beija.) Querida, você está simplesmente primorosa. Está ótima. Você parece boa o bastante para comer. Agora, diga-me como eu estou. (Ele se empina e posa.) Boa o bastante para comer?

Bongi: Eu não poderia dizer; eu sou vegetariana.

Miss Collins (notando alguém pela rua): Oh, Deus, olha quem está…. Apenas ignore-a. Ela é, sem dúvida, a bicha mais extravagante e sem gosto que eu já encontrei. Tenho vergonha de ser vista na rua com ela. Olhe para ela – 1965 e ela está usando sapato anabela.

(Scheherazade aparece.)

Scheherazade: Olá, Bongi, Amor. (Ele a beija.) E olá para você, também, Miss Collins.

Miss Collins: Não se atreva a tocar em mim.

Bongi: Sabe, eu acabei de notar – Scheherazade tem uma bunda como uma garota.

Scheherazade (animado): Oh, eu tenho? Eu tenho? (Ele empina a bunda dele.)

Miss Collins: Como é a minha? Olhe a minha. (Ele empina a bunda dele.)

Bongi: Nah, você tem uma bunda magricela.

(Scheherazade põe a língua para fora para Miss Collins.)

Miss Collins: Mas olhe para ela quando eu ando; isso faz uma grande diferença. (Ele anda e empina a bunda dele.)

Bongi: Não, ainda é uma bunda magricela.

Miss Collins: Tudo bem, então você não pode ter tudo.

Scheherazade: O que mais tem aí?

Miss Collins (para Bongi): é melhor você prestar atenção a como você se senta, Senhorita Coisa; afinal, ainda somos homens.

Scheherazade: Fale só por você.

Miss Collins: Eu encaro a realidade, e a nossa realidade é que somos homens.

Scheherazade: Você é o que você parece.

Bongi: Você é muito bonito para um garoto.

Scheherazade (raiva controlada): O que você quer dizer? Para um garoto? Olha, não quero me gabar, mas eu sei o que eu tenho.

Miss Collins: Você sabe onde você tem? Está entre as suas pernas.

Scheherazade: Ooooo, ela é tão vil. Senhorita Bunda-Ridícula.

Miss Collins: Talvez sim, mas pelo menos eu jamais usaria brilho dourado nos olhos para sair à tarde. De qualquer maneira, é verdade, verdade, verdade, e você sabe que é verdade – você iria direto para a cama atrás de uma xoxota gostosa.

Scheherazade: Eu SOU uma xoxota gostosa.

Miss Collins: Isso é exatamente o que eu sempre disse – você tem uma cara que parece uma boceta.  Cara de Boceta! Cara de boceta!

Scheherazade: Oooooo, eu desprezo as bichas.

Miss Collins: Devo lhe contar um segredo? Eu desprezo os homens! Oh, por que eu deveria ser um deles? (Se animando) Você sabe o que eu gostaria de ser mais do que qualquer coisa no mundo? Uma lésbica. Então eu poderia ser o bolo e comê-lo, também.

Scheherazade: Você é muito insensível para apreciar a nobreza dos relacionamentos dóricos. Eu mesma tive os casos mais belos e inspiradores.

Miss Collins: Que casos – três minutos atrás de um arbusto, um minuto e meio cada.

Scheherazade: Estou cansada de você sempre pegar algo belo e bom, e torná-lo sujo. (Ele bate em Miss Collins com a bolsa dele.)

Miss Collins: Não me bata, Cobra. (Ele empurra Scheherazade forte, fazendo-o cambalear para trás.) Apenas não me bata.

(Ele empurra Scheherazade forte novamente, fazendo-o cambalear ainda mais para trás. Miss Collins continua empurrando Scheherazade mais abaixo na rua.)

Scheherazade: Eu não bati em você assim tão forte. É melhor você parar de me bater, ou você vai se arrepender. (Fora de vista.) Policial, policial, essa coisa, ela está me cutucando na bunda com o lápis de olho dela. (Suas vozes desaparecem.)

(Uma garota alta de cerca de 25 anos, vestindo terno e minissaia, sai do prédio de apartamentos, carregando um saco de papel e dois pauzinhos chineses.)

Ginger: Diga, moça, por acaso você viu um cocô por aqui?

Bongi: Bem, qual o aspecto desse cocô? Ele é azul?

Ginger: Uh, não, não, não, não.

Bongi: Ele é verde?

Ginger: Não, não, não, não.

(Ginger se inclina e procura pelo cocô.)

Bongi: Ele é vermelho?

Ginger: Não! Não! Não! Não! É apenas um pequeno cocozinho amarelo.

Bongi: Não, eu não o vi. Sem querer ser intrometida, mas este cocô tem valor sentimental?

Ginger: Não seja absurda. É para o jantar.

Bongi: Oh. Por que ele estaria rolando aqui fora?

Ginger: Eu o peguei para ser pintado de amarelo. Ele deve ter caído da sacola quando eu estava entrando.

Bongi: Você serve frequentemente cocô para o jantar?

Ginger: Você é realmente demais. Você gostaria de comer cocôs todo tempo? Isto é realmente asqueroso.

Bongi: Você tem razão nesse ponto.

Ginger: Terei companhia esta noite. Tenho dois homens realmente dinâmicos e fascinantes convidados para o jantar, e quero causar a melhor impressão possível.

Bongi: Então vai servir-lhes o cocô?

Ginger: Você é impossível. Asseguro-lhe que não tenho intenção alguma de servir cocô aos meus convidados. O cocô é para mim. Todo mundo sabe que os homens têm muito mais respeito por mulheres que são boas em engolir merda. Diga, você gostaria de jantar conosco?

Bongi: Eu não sei – depende do que mais terá no cardápio.

Ginger: Eu realmente não sei dizer; Russell quem vai cozinhar o jantar. Ele deverá chegar a qualquer minuto. É por isso que eu queria me apressar e encontrar o cocô; eu pensei que deveria dispô-lo como uma peça central antes dele chegar aqui.

Bongi: Se eu encontrá-lo por acaso, eu te aviso.

Ginger: Para ser sincera, é pelo Russell que estou te convidando para o jantar. Ele não conhece muitas garotas – eu sou sua única colega de trabalho – mas eu sei que ele adoraria conhecer algumas, então, desde que eu de certa forma o adotei – ele é um garoto tão encantador – eu sempre cuido dele, e você parece ser uma boa garota; eu acho que ele pode gostar de você, e, quem sabe, você pode agarrar um bom namorado. Vamos, junte-se a nós.

Bongi: Pode não ser uma má idéia; eu ainda nem comi. Certo, eu me juntarei a vocês.

*****

(excerto da peça de Valerie Solanas)

Cat: Grande civilização a nossa – minha vizinha do lado foi estuprada e sufocada até a morte por um garoto de entregas.

Ginger: Ah, o pobre garoto. Ele deve ter tido uma péssima mãe.

Russell: Provavelmente gastou todo o seu tempo competindo. Vê o tipo de mundo que as mulheres criam?

Cat (para Bongi): Você passa todo o seu tempo vadiando na rua?

Bongi: Não, eu tenho um instante ocasional ali no beco.

Cat: Então esse é o seu serviço. Esse é um negócio maneiro. Às vezes eu gostaria de ser uma garota, sentar numa mina de ouro; eu estaria mascateando-a por toda a cidade. De todo modo, para que a maioria delas está guardando-a? Para a velhice? Mas você é esperta – fazendo seu talento ser remunerado.

Bongi: Como você saberia o que é meu talento?

Cat: Qual é o talento de qualquer garota?

Bongi: Paciência. De que outra maneira todos vocês babuínos permaneceriam vivos?

Russell: Vocês mulheres se levam muito a sério. Não aceitam uma piada.

Bongi: Não, eu curto piadas. Estou apenas esperando chegar ao palco então eu poderei dizer minhas gracinhas.

Russell: A propósito, estou certo em concluir da sua conversa precedente com este garoto que você não tem um emprego?

Bongi: Isso mesmo. Eu solicitei um emprego uma vez, mas eles não me pagariam o bastante. Eu disse ao cara que não poderia trabalhar por aquele salário miserável. Ele disse que nenhuma das outras garotas lá se importou com o salário, porque o estabelecimento dele era um lugar divertido de se trabalhar e porque havia uma grande quantidade de solteiros desejáveis, bonitos e radiantes trabalhando lá. Eu perguntei a ele se eu poderia receber mais dinheiro se prometesse não me casar com nenhum deles. Ele disse que eu não tinha valores honestos.

Ginger: Indelicado da parte dele dizer isso a você.

Bongi: Mas eu não teria durado nem se me pagassem um mil por semana – eu não sou uma trabalhadora; sou uma amante.

Cat: Eu também; é por isso que eu sou um trabalhador.

Ginger: Isso não faz sentido; não se pode comprar o amor.

Cat: O amor é uma coceira na virilha.

Bongi: Então por que você precisa de uma garota para coçar sua virilha? Coce sua própria virilha.

Cat: Eu sou um cara do tipo sentimental; eu gosto de estar junto.

Russell (para Bongi): Sua ocupação não é um tanto precária?

Bongi: Ela tem seus altos e baixos.

Russell: Eu quero dizer ela não é um tanto insegura?

Bongi: De todo modo, o que a vida deveria ser? Um torneio de paciência?

Russell: Mas você não se preocupa?

Bongi: Nunca a respeito de trivialidades – como de onde vem minha próxima refeição.

Ginger: Sabe, eu considero sua vocação muito encantadora – a cortesã astuta, mestra de todas as graças e artimanhas da sedução. Diga-me, o que uma mulher deve fazer para seduzir um homem?

Bongi: Existir na presença dele.

Ginger: Vamos, por favor; há muito mais do que isso.

Bongi: Bem, se você estiver numa pressa muito grande, você pode tentar andar com sua braguilha aberta.

Ginger: Ah, vamos; pare de brincar. De verdade, eu tenho certeza que você deve considerar uma honra servir como alta sacerdotisa no templo do amor, cumprindo o honrado papel da mulher de agradar os homens. Nós, mulheres, todas nós temos um pouco da prostituta dentro de nós.

Bongi: Eu não.

Ginger: Mas a maioria das mulheres não vai deixá-la sair. Elas não sabem ser mulheres; elas têm água gelada em suas veias.

Bongi: Eu sempre pensei que era sangue.

Ginger: As mulheres deviam cultivar as graças da prostituta. Elas perderam o charme feminino, que uma vez encantou os homens.

Russell: Muito ocupadas competindo.

Ginger: Uma razão pela qual os homens são tão encantados por mim é que eles sentem a paixão selvagem, o animal selvagem, mas uma paixão de bom gosto, contida. Selvagem que eu sou, não sou fácil. Sou uma besta discreta.

Russell: Sim, discrição é a melhor parte da bestialidade, não rasgar ferozmente para alcançar o domínio, a competição de cão-comendo-cão.

Ginger (recitante): Quando uma mulher luta por igualdade ela renuncia à sua superioridade. Isso não é certo, Russell?

Russell: Inquestionavelmente. (Para Bongi.) Isso é muito profundo para você?

Bongi: O que você quer fazer? Colocar as mulheres de volta no purdah?

Cat: Nós não precisamos de purdah; temos os subúrbios.

Russell: Você é muito facilmente abrandado; você não pode ver o horror que está rastejando-se sobre nós. Deus, às vezes eu acho que é uma maldição ser sensível. Casamento – é a arma mais letal delas: antes do casamento os homens são ativos, inquietos e energéticos.

Bongi: Como uma árvore cheia de macacos.

Russell: Juventude exuberante, vibrante.

Bongi: Eu posso adivinhar onde eles estão vibrando.

Russell: Mas depois nós somos acalmados em tranquilidade, embalados em placidez, desvitalizados, domados em submissão; elas nos deixam sem forças com as quais contra-atacar; elas triunfam privando-nos de nosso bem mais precioso – a liberdade de solteiro.

Cat: Liberdade de solteiro, uma ova; essa é a liberdade de um gato de rua – livre para perambular pelas ruas à procura de algo para foder.

Russell: Fazer amor. Bem, vou admitir que há algumas vantagens para o casamento.

Bongi: Como as pensões das viúvas.

Ginger: E a maternidade.

Russell: Ahh, siimm, a Maternidade – bebêzinhos fofinhos e bonitos.

Bongi: Vamos todo mundo curvar nossas cabeças e fazer cuti cuti por dois minutos.

Russell: Um filho para levar meu nome através dos tempos – Fizzlebaum! Eu daria tudo para poder dar à luz, a realização do parto, o que toda mulher está desejando ansiosamente.

Bongi: Eu não.

Ginger: Como você sabe? Você não é uma especialista.

Russell: A maior honra, o poder supremo.

Ginger: A mão que balança o berço governa o mundo. Isso não é certo, Russell?

Russell: É incontestável.

Bongi: Essa é uma maximazinha bem engenhosa – enquanto a mão está balançando o berço ela não balançará o barco.

Ginger: Existem muitas mãos masculinas por aí para fazer qualquer balanço necessário no barco.

Bongi: Eu encontrei relativamente várias mãos masculinas peludas e velhas no meu dia, e não é o barco que elas querem agarrar.

Cat: Por que deveria ser? É um mundo de homens.

Bongi: Apenas por predefinição.

Ginger: Predefinição ou não, eu acho que é maravilhoso.

Cat: Lógico, em um mundo de homens vocês garotas tem a última arma – sexo.

Bongi: Então por que nós nunca tivemos 1 presidente sexy?

Cat (para Bongi): Por que você não se candidata a presidente?

Bongi: Nah, eu gosto de pensar grande.

Ginger: Pessoalmente, eu odiaria ver uma mulher presidente.

Cat: Por quê? Mulheres são tão boas quantos os homens em todos os aspectos.

Bongi: Eu já tive o bastante dos seus insultos.

Ginger: Bem, quer elas sejam ou não, nós nunca teremos uma. Nunca! Nós nunca tivemos… (voz de “então não”) …e nunca teremos. Teremos, Russell?

Russell: É impensável.

Bongi: Talvez ser presidente não seria uma idéia tão má: eu poderia eliminar o sistema monetário, e deixar as máquinas fazerem todo o trabalho.

Cat: Obrigado pelo aviso. Terei certeza de não votar em você. Lógico, eu gostaria de não precisar de ganha-pão – eu não desejo ter de combinar casamento e uma carreira – mas as garotas podem precisar dele. Você sabe o S no símbolo de dólar? Aquilo significa sexo.

Ginger: Na verdade, há algo a ser dito pelo sistema de Bongi; homens precisam de tempo ocioso.

Cat: O que eu farei com todo o ócio? Deitar por aí com uma grande ereção?

Ginger: É um pecado amarrar os homens aos trabalhos. Homens são os caçadores…

Cat: É, eu tenho feito isso bastante.

Ginger: …os aventureiros; eles deveriam ser livres para sair e inventar e explorar, voar para o desconhecido.

Russell: E deixar as crianças para as mulheres? Corroer meu filho com femininidade? Nunca! Quando mães não estão competindo estão servindo de mães; você tem que manter o olho nelas de perto. Eu quero que meu filho seja o melhor possível de todos os homens.

Bongi: Você quer dizer uma mulher mal-feita.

Russell: Quando ele crescer eu quero ser capaz de apontar para ele e dizer: “Aí vai meu filho – o homem.” Eu quero viver em uma cultura masculina.

Bongi: Essa é uma contradição de termos.

Russell: Eu quero um ambiente forte, viril.

Bongi: Então por que você não vai se exibir no ginásio YMCA?

Cat: A guerra dos sexos – ela vem se intensificando por séculos.

Bongi: Eu sei como nós podemos eliminá-la.

Cat: Como?

Bongi: Já ouviu falar de determinação de sexo?

Russell: Nunca! Nunca! Não é natural. Sempre existirão dois sexos.

Bongi: Homens são totalmente irracionais; eles não podem ver porque deveriam ser eliminados.

Russell: Não! O sistema de dois-sexos precisa estar certo; ele tem sobrevivido por centenas de milhões de anos.

Bongi: Assim como a doença.

Russell: Vocês não podem apenas determinar nosso fim. Nós não permitiremos; nós nos uniremos; nós lutaremos.

Bongi: Você também pode resignar-se: no fim a expressão “fêmeas da espécie” será uma redundância.

Russell: Você não sabe o que uma fêmea é, sua monstruosidade assexuada.

Bongi: Completamente o contrário, eu sou tão fêmea que sou subversiva.

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06/02/2010 at 21:36 Deixe um comentário

O Manifesto de SCUM

Por Valerie Solanas

Sendo a “vida” nesta “sociedade”, na melhor das hipóteses, um tédio absoluto, e nenhum aspecto da “sociedade” tendo a menor relevância para as mulheres, só resta às fêmeas politizadas, conscientes, responsáveis, em busca de emoções, derrubar o governo, eliminar o sistema monetário, instituir a automação completa e destruir o sexo masculino.

A reprodução é hoje tecnicamente possível sem a ajuda dos machos (ou, aliás, das fêmeas) e é possível produzir apenas fêmeas. Precisamos começar a fazer isso imediatamente. Conservar o sexo masculino não tem sequer o propósito duvidoso da reprodução. O macho é um acidente biológico: o gene Y (masculino) é um gene X (feminino) incompleto, ou seja, tem um conjunto incompleto de cromossomos. Em outras palavras, o macho é uma fêmea incompleta, um aborto ambulante, mutilado no estágio de gene. Ser macho é ser deficiente, emocionalmente limitado; a condição masculina é uma doença, e os machos são aleijões emocionais.

O macho é completamente egocêntrico, preso em si mesmo, incapaz de ter empatia ou de se identificar com outros, de amar, de sentir amizade, afeição ou ternura. Ele é uma unidade completamente isolada, incapaz de se relacionar com alguém. Suas reações são totalmente viscerais, não cerebrais; sua inteligência é uma mera ferramenta a serviço de seus impulsos e necessidades; ele é incapaz de paixão mental, de interação mental; não consegue se relacionar com nada além de suas próprias sensações físicas. Ele é um semimorto, uma excrescência apática, incapaz de dar ou receber prazer ou felicidade; conseqüentemente, ele é, na melhor das hipóteses, um tédio absoluto, uma bolha inofensiva, já que somente quem é capaz de se concentrar nos outros pode ter encanto. Ele está preso numa zona crepuscular a meio caminho entre seres humanos e macacos, e é bem pior que estes, porque, ao contrário dos macacos, ele é capaz de uma série de sentimentos negativos – ódio, ciúme, desprezo, repugnância, culpa, vergonha, incerteza – e além do mais, está ciente do que ele é e do que ele não é.

Apesar de completamente físico, o macho é impróprio até para o serviço de garanhão. Mesmo admitindo a competência mecânica, que poucos homens têm, ele é, em primeiro lugar, incapaz de gozar com entusiasmo, prazerosamente, sensualmente. Em vez disso, é consumido pela culpa e pela vergonha, pelo medo e pela insegurança: sentimentos enraizados na natureza masculina, que até o mais esclarecido dos treinamentos só consegue minimizar. Em segundo lugar, a sensação física que ele consegue atingir está perto do nada. E em terceiro, ele não sente empatia pela parceira, mas fica obcecado pela idéia de como está se saindo, tentando obter um desempenho nota 10, fazendo um bom trabalho de encanamento. Chamar um homem de animal é bajulá-lo. Ele é uma máquina, um vibrador ambulante. Freqüentemente é dito que os homens usam as mulheres. Usam-nas para quê? Certamente não é para o prazer.

Consumido pela culpa, pela vergonha, por medos, por inseguranças e obtendo, se ele tiver sorte, uma sensação física somente perceptível, o macho está, contudo, obcecado por sexo; ele nadará um rio de catarro, atravessará mais de um quilômetro com vômito até o nariz, se pensar que do outro lado haverá uma boceta amigável à sua espera. Ele foderá uma mulher que ele despreza, qualquer velha rabugenta e desdentada e, além disso, pagará pela oportunidade. Por quê? Aliviar a tensão física não é a resposta, já que a masturbação é suficiente para isso. Também não é para a satisfação do ego, isso não explica que foda cadáveres e bebês.

Completamente egocêntrico, incapaz de se relacionar, de ter empatia ou de se identificar, e preenchido com uma sexualidade vasta, penetrante e difusa, o macho é psiquicamente passivo. Como ele odeia sua própria passividade, a projeta nas mulheres, define o macho como ativo e então tenta demonstrá-lo (“provar que ele é um Homem”). Foder é o seu principal recurso para tentar provar isto (o Grande Homem com uma Grande Pica comendo uma Mulher Gostosa). Já que está tentando provar um equívoco, ele precisa “comprová-lo” repetidamente, interminavelmente. Foder, então, é uma tentativa compulsiva e desesperada de provar que ele não é passivo, que não é uma mulher; mas na verdade, ele é passivo e quer ser uma mulher.

Sendo uma fêmea incompleta, o macho passa a vida tentando completar-se, tornar-se fêmea. Ele tenta fazer isso procurando constantemente a fêmea, confraternizando-se, tentando viver através dela e fundir-se nela, e reivindicando como suas todas as características femininas – força emocional e independência, vigor, dinamismo, decisão, tranqüilidade, objetividade, segurança, coragem, integridade, vitalidade, intensidade, profundidade de caráter, genialidade, etc. – e projetando nas mulheres todos os traços masculinos – vaidade, frivolidade, trivialidade, fraqueza, etc. Deve ser dito, entretanto, que o macho possui uma área de evidente superioridade sobre a fêmea – a de relações públicas. (Ele realizou um trabalho brilhante convencendo milhões de mulheres de que os homens são mulheres e as mulheres são homens.) A afirmação masculina que as fêmeas se realizam através da maternidade e da sexualidade reflete o que os machos pensam que seria a realização deles se eles fossem fêmeas.

As mulheres não têm inveja do pênis, os homens é que invejam a boceta. Quando o macho aceita sua passividade, define-se como mulher, (os machos, assim como as fêmeas, pensam que os homens são mulheres e as mulheres são homens) e se torna um travesti: ele perde o desejo de foder (ou de fazer qualquer outra coisa, aliás; ele só se realiza como drag queen) e faz com que lhe cortem o pinto. Ele obtém então um sentimento sexual contínuo e difuso de “ser mulher”. Foder é, para um homem, uma defesa contra o seu desejo de ser fêmea. O sexo é, em si, uma sublimação.

O macho, por causa da sua obsessão em se compensar por não ser fêmea combinada à sua incapacidade de se relacionar e de sentir compaixão, fez do mundo um monte de merda. Ele é responsável por:

Guerra: O método masculino normal de se compensar por não ser fêmea, a saber, disparar sua Grande Arma, é totalmente inadequado, já que ele só pode fazer isso poucas vezes. Então, ele a dispara em uma escala realmente massiva e prova ao mundo inteiro que é um “Homem”. Já que ele não tem compaixão nem é capaz de ter empatia ou identificação, vale a pena causar uma enorme quantidade de mutilação e sofrimento e destruir um número infinito de vidas, inclusive a dele mesmo, para provar a sua virilidade – sendo sua própria vida sem valor, ele preferiria partir num esplendor de glória a se arrastar severamente por mais cinqüenta anos.

Amabilidade, Delicadeza e “Dignidade”: Todo homem, bem no fundo, sabe que não passa de um desprezível pedaço de merda. Oprimido por um sentimento de bestialidade e profundamente envergonhado por isso; querendo não se expressar, mas esconder dos outros que ele é totalmente físico, totalmente egocêntrico, ele procura disfarçar o ódio e o desprezo que sente pelos outros homens, e esconder de si o ódio e o desprezo que suspeita que outros homens sintam por ele; tendo um sistema nervoso grosseiramente construído que é facilmente perturbado pela menor demonstração de emoção ou de sentimento, o macho tenta forçar um código “social” que garanta uma perfeita brandura, sem a mancha do menor traço de sentimento ou opinião inquietadora. Ele usa expressões como “copular”, “contato íntimo”, “ter relações com” (para os homens, “relações sexuais” é redundância), revestidas de modos afetados; o terno no macaco.

Dinheiro, Casamento e Prostituição, Trabalho e Impedimento de uma Sociedade Automatizada: Não há razão humana para o dinheiro ou para alguém trabalhar mais de duas ou três horas por semana, no máximo. Todos os trabalhos não criativos (praticamente todos os trabalhos feitos atualmente) já poderiam ter sido automatizados há muito tempo, e numa sociedade sem dinheiro todas poderiam ter tudo do melhor que quisessem. Mas há razões não humanas, razões masculinas, para a manutenção do sistema monetário:

1. Boceta. Desprezando seu eu altamente inadequado, dominado por uma intensa ansiedade e uma solidão profunda, extrema, quando só com seu eu vazio, desesperado para se amarrar a qualquer fêmea na vaga esperança de se completar, na crença mística de que tocando o ouro ele se transformará em ouro, o macho almeja o convívio contínuo ao lado das mulheres. A companhia da mais baixa das fêmeas é preferível à sua própria ou à de outro homem, que só serve para lembrá-lo de sua repugnância. Mas as fêmeas, a menos que sejam muito jovens ou muito doentes, precisam ser coagidas ou subornadas para conviver ao lado dos machos.

2. Dar ao macho a ilusão de utilidade e a possibilidade de tentar justificar a sua existência cavando buracos e enchendo-os. O tempo de lazer horroriza o macho, que não terá nada para fazer a não ser contemplar seu eu grosseiro. Incapaz de se relacionar ou de amar, o macho precisa trabalhar. As fêmeas almejam uma atividade absorvente, que tenha sentido e seja emocionalmente satisfatória, mas se não têm oportunidade ou habilidade para isso, elas preferem ficar ociosas e passar o tempo da maneira que preferirem – dormindo, fazendo compras, jogando boliche, sinuca, cartas e outros jogos, procriando, lendo, caminhando, sonhando acordadas, comendo, brincando consigo mesmas, tomando pílulas, indo ao cinema, fazendo terapia, viajando, cuidando de gatos e cachorros, refestelando-se na praia, nadando, assistindo à televisão, ouvindo música, decorando a casa, fazendo jardinagem, costurando, indo a boates, dançando, fazendo visitas, “aperfeiçoando suas mentes” (freqüentando cursos) e absorvendo “cultura” (conferências, peças, concertos, filmes de “arte”). Por isso, muitas fêmeas prefeririam, mesmo supondo a total igualdade econômica entre os sexos, viver com machos ou vender a bunda na rua, para terem a maior parte do seu tempo para si próprias, em vez de passarem muitas horas dos seus dias fazendo para outra pessoa um trabalho tedioso, imbecilizante, não criativo, funcionando como menos que animais, como máquinas ou, na melhor das hipóteses – se forem capazes de obter um “bom” trabalho – co-administrando o monte de merda. Portanto, o que vai liberar as mulheres do controle dos machos é a total eliminação do sistema dinheiro-trabalho, não a obtenção da igualdade econômica com os homens neste sistema.

3. Poder e controle. Incapaz de ser soberano em suas relações pessoais com as mulheres, o macho alcança a soberania geral manipulando o dinheiro e tudo o que é controlado pelo dinheiro, em outras palavras, tudo e todo o mundo.

4. Substituto do amor. Incapaz de dar amor e afeição, o macho dá dinheiro. Isso faz com que se sinta maternal. A mãe dá leite; ele dá pão. Ele é o Provedor.

5. Dá ao macho um objetivo. Incapaz de apreciar o momento, o macho precisa de algo para aguardar ansiosamente, e o dinheiro lhe fornece um objetivo eterno, sem fim: Imagine o que você poderia fazer com 80 trilhões de dólares – Invista-os! E dentro de três anos você terá 300 trilhões de dólares!!!

6. Fornece ao macho a base para a sua maior oportunidade de controlar e manipular – a paternidade.

Paternidade e Doença Mental (medo, covardia, timidez, humildade, insegurança, passividade): A Mãe quer o melhor para suas crianças; o Papai só quer o que é melhor para o Papai, ou seja, paz e sossego, alimentando a sua ilusão de dignidade (“respeito”), de uma boa imagem de si mesmo (status) e dando-lhe a oportunidade de controlar e manipular, ou, se ele é um pai “esclarecido”, de “dar orientação”. Além disso, ele deseja sexualmente sua própria filha – dá a mão dela ao futuro marido, o restante é para ele próprio. Papai, ao contrário da Mãe, nunca pode ceder para suas crianças, já que precisa, a todo custo, conservar a sua ilusão de determinação, firmeza, de estar sempre com a razão e força. Nunca fazer o que se tem vontade leva à falta de confiança na própria capacidade de enfrentar o mundo e a uma aceitação passiva do status quo. A Mãe ama suas crianças, embora às vezes se zangue. Mas a raiva passa rápido e, mesmo enquanto perdura, não impede o amor e a aceitação básica. Emocionalmente doente, Papai não ama suas crianças; ele as aprova – se forem “boas”, ou seja, se forem bem-comportadas, “respeitosas”, obedientes, subservientes à sua vontade, quietas e não inclinadas a demonstrações inconvenientes de irritação que seriam muitíssimo danosas para o sistema nervoso masculino do Papai, que se perturba com muita facilidade – em outras palavras, se forem vegetais passivos. Se não forem “boas”, ele não fica zangado – não se for um pai moderno, “civilizado” (o bruto descontrolado, furioso, hoje fora de moda, é preferível, pois, sendo tão ridículo, pode ser facilmente desprezado) – em vez disso, manifesta desaprovação, um estado que, diferente da raiva, persiste e impede uma aceitação básica, deixando a criança com um sentimento de inutilidade e uma obsessão vitalícia por aprovação. O resultado é o temor ao pensamento independente, pois este leva à opiniões e modos de vida não convencionais, desaprovados.

Para que a criança obtenha a aprovação do Papai, ela precisa respeitá-lo e, sendo um lixo, o Papai só pode garantir que é respeitado permanecendo indiferente, pela distância, agindo de acordo com o preceito de que “a intimidade gera o desprezo”, o que evidentemente é verdade, se alguém é desprezível. Sendo indiferente e distante, ele é capaz de permanecer desconhecido, misterioso, e assim inspirar medo (“respeito”).

A desaprovação de “cenas” emocionais gera o temor por emoções fortes, o medo dos seus próprios sentimentos de raiva e de ódio e o medo de encarar a realidade, já que encará-la leva inicialmente à raiva e ao ódio. O medo da raiva e do ódio, aliado à falta de confiança na sua própria capacidade de lidar com o mundo e de mudá-lo, ou até de afetar por pouco que seja o próprio destino, leva a uma crença estúpida de que o mundo e a maioria das pessoas que vivem nele são boas e de que as distrações mais banais, triviais, são profundamente aprazíveis e uma grande diversão.

O resultado da paternidade nos machos, especificamente, é torná-los “Homens”, ou seja, altamente defensivos em relação a todos os impulsos de passividade, viadagem, e aos desejos de ser fêmea. Todo menino quer imitar a mãe, ser ela, fundir-se com ela, mas o Papai proíbe isso; ele é a mãe; ele se funde com ela. Assim, ele tenta convencer o menino, às vezes diretamente, outras indiretamente, a não ser um maricas, a agir como um “Homem”. O menino, borrando-se de medo e “respeitando” o pai, obedece e torna-se exatamente como o Papai, esse modelo de virilidade, o ideal Americano – o imbecil heterossexual bem-comportado.

O resultado da paternidade nas fêmeas é torná-las masculinas – dependentes, passivas, domésticas, bestiais, boazinhas, inseguras, em busca de aprovação e segurança, covardes, humildes, “respeitosas” em relação às autoridades e aos homens, fechadas, com dificuldade de reação, semimortas, triviais, tolas, convencionais, desinteressantes e completamente desprezíveis. A Menina do Papai, sempre tensa e medrosa, intranqüila, não analítica, carente de objetividade, aprecia o Papai e, conseqüentemente, os outros homens, num contexto de medo (“respeito”) e não só é incapaz de ver a concha vazia que está por trás da fachada indiferente, como também aceita a definição masculina dele mesmo como superior, como uma fêmea, e dela mesma como inferior, como um macho – o que, graças ao Papai, ela realmente é.

Foi o crescimento da paternidade, resultado do desenvolvimento e da difusão da riqueza – que a paternidade necessita para prosperar –, que causou o aumento geral da estupidez e o enfraquecimento das mulheres nos Estados Unidos desde a década de 1920. A estreita ligação da riqueza com a paternidade, fez com que quase sempre, apenas as meninas erradas, ou seja, as meninas da classe média “privilegiada”, fossem “educadas”.

O resultado da paternidade, em suma, tem sido a corrosão do mundo pela masculinidade. O macho tem um toque de Midas negativo – tudo o que ele toca transforma-se em merda.

Supressão da Individualidade, Bestialidade (domesticidade e maternidade) e Funcionalismo: O macho não passa de um feixe de reflexos condicionados, incapaz de uma reação mentalmente livre; ele é atado ao condicionamento que recebeu nos primeiros anos de vida, determinado completamente pelas experiências passadas. Suas experiências mais antigas são com a sua mãe, e por toda a vida ele fica atado a ela. Nunca fica completamente claro para o macho que ele não é parte de sua mãe, que ele é ele e ela é ela.

Sua maior necessidade é ser guiado, abrigado, protegido e admirado pela Mamãe (os homens esperam que as mulheres adorem aquilo que eles têm mais pavor – eles mesmos) e, sendo apenas físico, anseia por passar o tempo (que não é passado “fora, no mundo”, defendendo-se severamente de sua passividade) chafurdando em atividades animais básicas – comer, dormir, cagar, relaxar e ser confortado pela Mamãe. A tola e passiva Menina do Papai, sempre em busca de aprovação, de um afago na cabeça, do “respeito” de qualquer pedaço de lixo que passe por seu caminho, é facilmente reduzida a Mamãe, assistente estúpida das necessidades físicas, confortadora do enfadonho, das sobrancelhas de macaco, promotora do ego débil, apreciadora do desprezível, uma garrafa de água quente com tetas.

A redução à condição animal sofrida pelas mulheres do segmento mais atrasado da sociedade – a classe média “privilegiada, educada”, o remanso da humanidade –, onde o Papai reina soberano, foi tão completa que elas tentam curtir as dores do trabalho de parto e andam pelo país mais avançado do mundo, no meio no século vinte, com bebês mascando suas tetas. Não é pelo bem das crianças que os “especialistas” dizem às mulheres que a Mamãe deve ficar em casa e se aviltar em bestialidade, e sim pelo bem do Papai; a teta é para o Papai se pendurar nela; as dores do parto são para o Papai curtir de modo vicário (semimorto, ele precisa de estímulos terrivelmente fortes para fazê-lo reagir).

A redução da fêmea a um animal, à Mamãe, a um macho, é necessária por razões psicológicas e também práticas: o macho é um mero membro da espécie, permutável com qualquer outro macho. Ele não tem nenhuma individualidade profunda, que se origina do que lhe interessa, do que é exterior e lhe absorve, aquilo com que você se relaciona. Completamente concentrados em si mesmos, capazes de se relacionar apenas com seus corpos e com suas sensações físicas, os machos diferem uns dos outros apenas quanto ao grau e aos modos como tentam se defender contra sua passividade e contra seu desejo de ser fêmeas.

A individualidade da fêmea – que ele percebe acentuadamente, mas não compreende ou apreende emocionalmente, e com a qual não é capaz de se relacionar – amedronta-o, perturba-o e o enche de inveja. Assim, ele nega a individualidade da fêmea e prossegue definindo todo mundo em termos da função ou do uso que ele ou ela tem, atribuindo para si mesmo, evidentemente, as funções mais importantes – médico, presidente, cientista – e por meio disso, obtém uma identidade, se não uma individualidade, e tenta convencer a si mesmo e às mulheres (teve melhor êxito convencendo as mulheres) de que a função da fêmea é parir e criar filhos e relaxar, confortar e promover o ego do macho – função esta que a torna permutável com qualquer outra fêmea. Na verdade, a função da fêmea é se relacionar, curtir, amar e ser ela própria, insubstituível; a função do macho é produzir esperma. Porém, agora temos bancos de esperma.

Na verdade, a função da fêmea é investigar, descobrir, inventar, solucionar problemas, contar piadas, fazer música – tudo com amor. Por outras palavras, criar um mundo mágico.

Impedimento da Privacidade: Embora o macho, tendo vergonha do que é e de quase tudo o que faz, insista na privacidade e no sigilo em todos os aspectos de sua vida, ele não tem verdadeiro apreço pela privacidade. Sendo vazio, não sendo um ser completo, separado, não tendo um eu do qual goste e precisando constantemente da companhia feminina, ele não vê nada de errado em se intrometer nos pensamentos de qualquer mulher, até mesmo nos de uma desconhecida, em qualquer lugar e a qualquer hora. No entanto, quando o rebaixam por fazer isso, ele se sente indignado, insultado e também confuso – ele não consegue, por mais que tente, compreender como alguém pode preferir muito mais um minuto de solidão em vez da companhia de qualquer idiota que esteja por perto. Com uma vontade intrínseca de se tornar mulher, ele faz o possível para estar constantemente por perto das fêmeas, que é o mais próximo que ele consegue chegar de ser uma. Para isso criou uma “sociedade” baseada na família – um casal macho-fêmea e suas crianças (a desculpa para a existência da família), que vivem controlando uns aos outros, violando inescrupulosamente os direitos, a privacidade e a sanidade das fêmeas.

Isolamento, Subúrbios e Rejeição da Comunidade: Nossa sociedade não é uma comunidade, mas apenas uma coleção de unidades familiares isoladas. Desesperadamente inseguro, temendo que sua mulher o abandone caso esteja exposta aos outros homens ou a qualquer coisa remotamente semelhante à vida, o macho procura isolá-la dos outros homens e da pouca civilização que exista, decide viver em subúrbios, que são agrupamentos de casais voltados para si próprios e suas crianças. O isolamento lhe possibilita a tentativa de manter a sua simulação de ser um indivíduo tornando-se um “individualista severo”, um solitário, que equipara a não-cooperação e a solidão com a individualidade.

Há ainda uma outra razão para o macho se isolar: todo homem é uma ilha. Preso em si mesmo, emocionalmente isolado, incapaz de se relacionar, o macho tem horror à civilização, às pessoas, às cidades, às situações que exigem uma habilidade de compreender e se relacionar com as pessoas. Assim, como um coelho assustado, ele sai correndo, arrastando consigo a idiotinha do Papai para o mato, para os subúrbios ou, no caso do “hippie” – ele está em vias de extinção, Cara! –, até para o pasto, onde pode foder e procriar sem ser perturbado e ficar à toa com os seus colares e sua flauta.

O “hippie”, cujo desejo de ser um “Homem”, um “individualista severo”, não é tão forte quanto o do homem médio, e que, além disso, se entusiasma com a idéia de ter várias mulheres à disposição dele, se rebela com o rigor da vida de um Provedor e a monotonia de uma única mulher. Em nome da divisão e da cooperação, ele forma a comuna ou a tribo que, com toda a sua intimidade familiar, e em parte por causa dela (a comuna, sendo uma família extensa, é uma violação extensa dos direitos, da privacidade e da sanidade das fêmeas), tem tanto de uma comunidade quanto a “sociedade” normal.

Uma verdadeira comunidade compõe-se de indivíduos – não de meros membros da espécie, não de casais – que respeitam a individualidade e a privacidade uns dos outros, ao mesmo tempo em que interagem mentalmente e emocionalmente uns com os outros – espíritos livres em relações mútuas livres – e cooperam uns com os outros para atingir fins comuns. Tradicionalistas dizem que a unidade básica da “sociedade” é a família; “hippies” dizem que é a tribo; ninguém se refere ao indivíduo.

O “hippie” tagarela sobre individualidade, mas não a compreende mais do que qualquer outro homem. Ele deseja voltar para a Natureza, voltar para o mato, voltar para o lar dos animais peludos, pois é um deles, distanciar-se da cidade, onde há pelo menos um sinal, um mero início de civilização, para viver no nível da espécie, ocupando seu tempo com atividades simples, não intelectuais – cultivar, foder, fazer colares de contas. A atividade mais importante da comuna, que constitui a sua base, é a suruba. O “hippie” se sente atraído pela comuna principalmente devido à perspectiva da gratuidade de todas as bocetas – o principal produto a ser compartilhado, que é obtido com um simples pedido – mas, cego pela ganância, ele deixa de imaginar todos os outros homens com quem tem de dividir as bocetas, ou o ciúme e a possessividade delas.

Os homens não podem cooperar para atingir um fim comum, porque o objetivo de todo homem é ter todas as bocetas para si. Portanto, a comuna está fadada ao fracasso: cada “hippie”, em pânico, agarrará a primeira tola que gostar dele e correrá com ela o mais rápido possível para os subúrbios. O macho não pode progredir socialmente, apenas oscila para frente e para trás, do isolamento para a suruba.

Conformidade: Apesar de querer ser um indivíduo, o macho tem medo de qualquer coisa que o diferencie minimamente dos outros homens; levando-o a suspeitar que ele não seja realmente um “Homem”, que ele é passivo e totalmente sexual, uma suspeita altamente perturbadora. Se os outros homens são “A” e ele não, então pode não ser um homem; deve ser uma bicha. Assim, ele tenta afirmar a sua “Masculinidade” sendo como todos os outros homens. Qualquer diferença nos outros homens, assim como nele próprio, o ameaça: significa que eles são bichas, que precisam ser evitados a qualquer custo, então ele tenta garantir que todos os outros homens se enquadrem.

O macho ousa ser diferente na medida em que aceita sua passividade e seu desejo de ser fêmea, sua bichice. O macho mais divergente é a drag queen, mas este, embora diferente da maioria dos homens, é exatamente como todas as outras drag queens; como o funcionalista, ele tem uma identidade – é uma mulher. Ele tenta afastar todas os seus problemas – mas a individualidade ainda inexiste. Não estando completamente convencido de que ele é uma mulher, altamente inseguro quanto a ser suficientemente fêmea, ele se ajusta compulsivamente ao estereótipo feminino feito pelo homem, e no fim das contas não é mais que um feixe de maneirismos afetados.

Para ter certeza de que é um “Homem”, o macho precisa garantir que a fêmea seja claramente uma “Mulher”, o oposto de um “Homem”, ou seja, a fêmea precisa agir como uma bicha. E a Menina do Papai, que teve todos os seus instintos de fêmea arrancados de si quando pequena, adapta-se fácil e obsequiosamente ao papel.

Autoridade e Governo: Não tendo nenhum senso do certo e do errado, nenhuma consciência, que só pode derivar da capacidade de se colocar no lugar do outro… não tendo nenhuma fé em seu eu inexistente, sendo desnecessariamente competitivo, e por natureza, incapaz de cooperar, o macho sente necessidade de orientação externa e controle. Assim, ele criou autoridades – padres, especialistas, chefes, líderes, etc. – e o governo. Desejando de ser guiado pela fêmea (Mamãe), mas incapaz de aceitar esse fato (afinal de contas, ele é um HOMEM), desejando representar o papel da Mulher, usurpar a função dela como Guia e Protetora, o macho providencia que todas as autoridades sejam machos.

Não há razão alguma para que uma sociedade composta de seres racionais capazes de ter empatia uns com os outros, completos e sem nenhuma razão natural para competir, precise de governo, leis ou líderes.

Filosofia, Religião e Moralidade Baseada no Sexo: A incapacidade do macho de se relacionar com alguém ou com qualquer coisa torna a sua vida inútil e sem significado (a percepção masculina fundamental é de que a vida é absurda), assim, ele inventou a filosofia e a religião. Sendo vazio, ele se volta para o mundo exterior, não apenas para ter orientação e controle, mas para se salvar e buscar o significado da vida. Sendo impossível para ele a felicidade nesta terra, ele inventou o Céu.

Para um homem, incapaz de ter empatia com os outros e sendo totalmente sexual, “errado” é a “licenciosidade” sexual e a adoção de práticas sexuais “diferentes” (“indignas do homem”), ou seja, não se defender contra a sua passividade e total sexualidade que, se satisfeitas, destruiriam a “civilização”, já que a “civilização” é baseada inteiramente na necessidade masculina de se defender contra essas características. Para uma mulher (de acordo com os homens), “errado” é qualquer comportamento que induziria os homens à “licenciosidade” sexual – ou seja, não colocar as necessidades do macho acima das dela e não ser uma bicha.

A religião, não somente proporciona aos homens um objetivo (o Céu) e ajuda a manter as mulheres atadas a eles, mas oferece rituais por meio dos quais eles podem tentar expiar a culpa e a vergonha que sentem por não se defenderem o suficiente de seus impulsos sexuais; essencialmente, a culpa e a vergonha que sentem de serem machos.

A maioria dos homens, totalmente covarde, projeta nas mulheres as suas fraquezas inerentes, chama-as de fraquezas femininas e acredita ter forças femininas; a maioria dos filósofos, não tão covardes, embora encare o fato de os homens terem deficiências masculinas, não pode admitir que elas só existem nos homens. Assim, esses filósofos chamam a condição masculina de Condição Humana e apresentam o problema da sua nulidade, que os aterroriza, como um dilema filosófico, conferindo envergadura à sua bestialidade. Com grandiloqüência, eles chamam sua nulidade de “Problema de Identidade” e então tagarelam pomposamente sobre a “Crise do Indivíduo”, a “Essência do Ser”, “Existência precedendo a Essência”, “Modos de Ser Existenciais”, etc., etc.

Uma mulher não apenas conta com sua identidade e individualidade como também sabe instintivamente que a única coisa errada é causar dano aos outros e que o significado da vida é o amor.

Preconceito (racial, étnico, religioso, etc.): O macho precisa de bodes expiatórios sobre os quais ele possa projetar suas deficiências e incapacidades e sobre os quais possa dar vazão à frustração que sente por não ser fêmea. E as várias discriminações têm a vantagem prática de aumentar substancialmente a quantidade de bocetas disponíveis para os homens no topo.

Competição, Prestígio, Status, Educação Formal, Ignorância e Classes Sociais e Econômicas: Tendo um desejo obsessivo de ser admirado pelas mulheres, mas sendo desprovido de valor intrínseco, o macho constrói uma sociedade altamente artificial, que lhe permite apropriar-se de uma aparência de valor através do dinheiro, prestígio, “alta” classe social, diplomas, posição profissional e conhecimento, derrubando à mais baixa escala profissional, social, econômica e educativa tantos outros homens quanto puder .

O objetivo da educação “superior” não é educar, mas excluir das várias profissões o maior número de pessoas possível.

O macho, totalmente físico, incapaz de relação mental, embora possa compreender e usar conhecimentos e idéias, é inábil para se relacionar com eles, apreendê-los emocionalmente; ele não valoriza o conhecimento e as idéias por si próprios (considera-os apenas meios para chegar a fins) e, conseqüentemente, não tem necessidade de companhias mentais, nem de cultivar as potencialidades intelectuais dos outros. Pelo contrário, o macho tem um interesse investido na ignorância, que garante aos poucos homens instruídos uma vantagem decisiva sobre os não instruídos e, além disso, o macho sabe que uma população de fêmeas esclarecidas, conscientes, significará o seu fim. A fêmea saudável, orgulhosa, quer a companhia de iguais, que ela possa respeitar e curtir; o macho e a fêmea masculina doente, insegura e sem autoconfiança, anseiam pela companhia de vermes.

Nenhuma revolução social genuína pode ser realizada pelo macho, pois o macho que está no alto quer a permanência do status quo, e tudo o que o macho que está na base quer é ser o macho que está no alto. O macho “rebelde” é uma farsa; esta é a “sociedade” do macho, feita por ele para satisfazer às necessidades dele. Ele nunca está satisfeito, porque não é capaz de se satisfazer. O macho “rebelde” revolta-se basicamente contra o fato de ser macho. O macho só muda quando é forçado a isso pela tecnologia, quando não tem escolha, quando a “sociedade” atinge o estágio em que ele precisa mudar para não morrer. Nós estamos nesse estágio agora; se as mulheres não se mexerem rapidamente, poderemos todos morrer.

Rejeição do Diálogo: Sendo completamente autocentrado e incapaz de se relacionar com qualquer coisa além de si mesmo, a “conversa” do macho, quando não gira em torno dele mesmo, é uma lengalenga impessoal, sem nenhum conteúdo de valor humano. A “conversa intelectual” do macho é uma tentativa forçada, compulsiva, de impressionar a fêmea.

A Menina do Papai, passiva, adaptável, respeitosa e amedrontada pelo macho, permite que ele lhe imponha a sua conversa terrivelmente insípida. Para ela isso não é muito difícil, uma vez que a tensão, a ansiedade, a intranqüilidade, a insegurança e a incerteza quanto a seus próprios sentimentos e sensações – que o Papai instilou nela – tornam superficiais as suas percepções e a incapacitam de ver que a arenga do macho é uma arenga; como o esteta “apreciando” a bolha que é chamada de “Grande Arte”, ela acredita estar curtindo a chatice do bobalhão ao seu lado. Além de permitir que a arenga dele domine, a fêmea faz com que a sua própria “conversa” se adapte a ela.

Treinada desde a primeira infância para ser amável, delicada e “digna”, para alimentar a necessidade masculina de disfarçar a bestialidade dele, ela obsequiosamente reduz sua “conversa” a um diálogo meloso, insípido, evitando qualquer assunto fora do estritamente trivial – ou, é “educada” para a discussão “intelectual”, ou seja, o discurso impessoal sobre abstrações irrelevantes – o Produto Interno Bruto, o Mercado Comum, a influência de Rimbaud na pintura simbolista. Sua perícia em alimentar o ego do macho é tanta que isso acaba por se tornar sua segunda natureza, e ela continua a bajular os homens até quando só há mulheres à sua volta.

À parte da bajulação, sua “conversa” também é limitada pelo temor de manifestar opiniões próprias, diferentes ou originais, e por estar voltada apenas para si devido à sua insegurança, e isso impede a sua conversa de ter encanto. Dificilmente a amabilidade, a delicadeza, a “dignidade”, a insegurança e a introversão podem levar à intensidade e à perspicácia, qualidades que uma conversa precisa ter para merecer esse nome. É improvável que tal conversa seja arrebatadora, pois só as fêmeas completamente autoconfiantes, arrogantes, extrovertidas, orgulhosas, decididas, são capazes de uma conversa intensa, maliciosa, engenhosa.

Rejeição à Amizade (Amor): Os homens desprezam a si mesmos, a todos os outros homens que eles contemplam mais do que casualmente e que não consideram fêmeas (por exemplo, terapeutas “simpáticos” e “Grandes Artistas”) ou agentes de Deus e a todas as mulheres que os respeitam e alimentam seu ego; as fêmeas masculinas inseguras, que alimentam o ego masculino, em busca de aprovação, desprezam a si mesmas e a todas as mulheres que se parecem com elas; as fêmeas femininas autoconfiantes, vibrantes, em busca de emoções, desprezam os homens e as fêmeas masculinas que alimentam o ego deles. Resumindo, o desprezo está na ordem do dia.

Amor não é dependência nem sexo, mas sim amizade, e portanto, o amor não pode existir entre dois machos, entre um macho e uma fêmea ou entre duas fêmeas, situações em que um ou ambos são machos estúpidos, inseguros, alimentadores do ego masculino; assim como a conversa, o amor só pode existir entre fêmeas femininas seguras, livres, independentes, vibrantes, uma vez que a amizade se baseia no respeito e não no desprezo.

Até mesmo entre fêmeas vibrantes, as amizades profundas raramente ocorrem na idade adulta, quando quase todas elas já estão atadas aos homens para sobreviver economicamente, ou atoladas na lama lutando para abrir caminho na selva e tentando manter a cabeça acima do nível da massa amorfa. O amor não pode florescer numa sociedade baseada no dinheiro e no trabalho sem sentido; ele exige total liberdade econômica e pessoal, tempo de lazer e oportunidade de se envolver em atividades profundamente absorventes, emocionalmente satisfatórias, que, ao serem compartilhadas com a quem se respeita, levam à amizade profunda. Nossa “sociedade” praticamente não oferece oportunidade para envolver-se nessas atividades.

Tendo varrido do mundo o diálogo, a amizade e o amor, o macho nos oferece estes substitutos desprezíveis:

“Grande Arte” e “Cultura”: O “artista” masculino tenta resolver seu dilema de não ser capaz de viver, de não ser fêmea, construindo um mundo altamente artificial onde o macho se torna herói, ou seja, exibe traços femininos, e a fêmea é reduzida a papéis altamente limitados, insípidos e subordinados, ou seja, a ser macho.

Sendo que o objetivo “artístico” do macho não é comunicar-se (com seu vazio interior ele não tem nada para dizer) e sim disfarçar sua bestialidade, ele recorre ao simbolismo e à obscuridade (materiais “profundos”). A grande maioria das pessoas, sobretudo as “educadas”, não acredita nos próprios julgamentos, é humilde e respeita a autoridade (“Papai sabe mais” é traduzido para a linguagem adulta como “O crítico sabe mais”, “O escritor sabe mais”, “O Ph.D sabe mais”). Assim, são levadas facilmente a acreditar que a obscuridade, a conduta evasiva, o hermetismo, o modo indireto, a ambigüidade e a chatice são marcas de profundidade e brilho.

A “Grande Arte” prova que os homens são superiores às mulheres, que os homens são mulheres, uma vez que quase toda a chamada “Grande Arte”, como os antifeministas adoram nos lembrar, foi criada pelos homens. Sabemos que a “Grande Arte” é grande porque as autoridades masculinas nos disseram isso e não podemos afirmar o contrário, pois apenas aqueles que têm sensibilidades extraordinárias, muito superiores às nossas, podem perceber e apreciar tal grandeza, sendo o fato deles apreciarem essa baboseira a prova da superioridade de suas sensibilidades.

Apreciar é a única diversão dos “cultos”; passivos e incompetentes, sem imaginação nem perspicácia, eles precisam se contentar em apreciar; incapazes de criar suas próprias diversões, de criar um mundinho seu, de afetar da menor maneira seu meio ambiente, eles têm de aceitar o que lhes é dado. Incapazes de criar ou de se relacionar, eles assistem. Absorver “cultura” é uma tentativa desesperada, frenética, de gostar de um mundo insípido, de fugir do horror de uma existência idiota. A “cultura” fornece um suborno para o ego dos incompetentes, um meio de racionalizar a observação passiva; eles podem se orgulhar de sua capacidade de apreciar as coisas “mais finas”, de ver uma jóia onde há apenas um cocô (querem ser admirados por admirar). Não acreditando em sua capacidade de mudar o que quer que seja, resignados com o status quo, eles têm de achar o cocô bonito porque, até onde vai a sua visão de mundo, a única coisa que terão é mesmo o cocô.

A veneração pela “Arte” e pela “Cultura” – além de levar muitas mulheres para atividades enfadonhas, passivas, que as desviam de atividades mais importantes e gratificantes e do cultivo de suas potencialidades – leva à constante intromissão em nossa sensibilidade de pomposas dissertações sobre a profunda beleza desse e daquele cocô. Isso permite que o “artista” seja instituído como detentor de sentimentos, percepções, compreensões e julgamentos superiores, e por meio disso minando a fé das mulheres inseguras do valor e da validade dos seus próprios sentimentos, percepções, compreensões e julgamentos.

O macho, tendo uma extensão muito limitada de sentimentos e, conseqüentemente, percepções, compreensões e julgamentos muito limitados, precisa do “artista” para guiá-lo, para dizer-lhe sobre o que há na vida. Mas o “artista” masculino, sendo totalmente sexual, incapaz de se relacionar com qualquer coisa a não ser com suas próprias sensações físicas e não tendo nada para expressar além da compreensão de que para o macho a vida é sem sentido e absurda, não pode ser artista. Como pode ele, que não é capaz de vida, nos dizer o que há na vida? Um “artista masculino” é uma contradição de termos. Um degenerado só pode produzir “arte” degenerada. A verdadeira artista é toda fêmea autoconfiante, saudável, e, numa sociedade feminina, a única Arte, a única Cultura, serão as fêmeas orgulhosas, excêntricas e autênticas se curtindo e curtindo tudo mais no universo.

Sexualidade: O sexo não é parte de um relacionamento; pelo contrário, é uma experiência solitária, não criativa, uma total perda de tempo. A fêmea pode facilmente – muito mais facilmente do que pensa – condicionar-se para afastar seu impulso sexual, ficando totalmente tranqüila e cerebral e livre para perseguir relacionamentos e atividades com algum valor real; mas o macho, que parece gostar sexualmente das mulheres e que procura sempre excitá-las, estimula a fêmea altamente sexual a frenesis de luxúria, enfiando-a num montão de sexo do qual poucas mulheres conseguem escapar. O macho lascivo excitou a fêmea sensual; ele precisa fazer isso – quando a fêmea transcende seu corpo, se eleva acima da bestialidade, o macho, cujo ego constitui-se de seu pênis, desaparecerá.

Sexo é o refúgio dos tolos. E quanto mais tola é a mulher, quanto mais profundamente ela é encaixada na “cultura” masculina, em resumo, quanto mais amável, mais sexual ela é. As mulheres mais amáveis em nossa “sociedade” são maníacas sexuais alucinadas. Mas sendo realmente muito amáveis, as mulheres não descem, naturalmente, ao nível da foda – o que seria grosseiro – em vez disso elas fazem amor, comungam por meio de seus corpos e estabelecem uma relação sensual; as literatas se sintonizam com a pulsação de Eros e conseguem abraçar o Universo; as religiosas entram em comunhão espiritual com o Sensualismo Divino; as místicas se fundem com o Princípio Erótico e se unem ao Cosmo; e as mentes adeptas do ácido entram em contato com suas células eróticas.

Do outro lado estão as fêmeas menos encaixadas na “cultura” masculina, as menos amáveis, essas almas simples e grosseiras que reduzem foder a foder, que são infantis demais para o mundo adulto dos subúrbios, das hipotecas, dos esfregões e do cocô de bebê, egoístas demais para criar filhos e maridos, incivilizadas demais para dar ouvidos à opinião dos outros sobre elas, arrogantes demais para respeitar o Papai, os “Grandes” ou a profunda sabedoria dos Anciões, que confiam somente nos instintos animais de suas entranhas, que igualam Cultura a garotas, que têm como única diversão rondar à procura de emoções e agitação, que estão dispostas a fazer “cenas” repugnantes, desagradáveis, perturbadoras, cadelas violentas, odiosas, que tendem a bater com a porta na cara de quem as irrita demais, que afundariam uma faca no peito de um homem ou enterrariam um furador de gelo em seu cu logo que o vissem, caso soubessem que poderiam fazer isso sem serem punidas, em resumo, as fêmeas que, pelos padrões da nossa “cultura” são a escória: SCUM… essas fêmeas são tranqüilas, relativamente cerebrais e margeiam a assexualidade.

Livres do decoro, da amabilidade, da discrição, da opinião pública, da “moralidade”, do “respeito” dos idiotas, as sempre autênticas, sujas, despudoradas, SCUM estão por todos os lados… por todos… elas já viram o show inteiro – pedaço por pedaço – a cena da trepada, a cena da chupada, a cena da sapatão – já cobriram todo o cais, passaram por debaixo de todas as docas e pontes de atracação – a ponte de atracação do pau, a ponte de atracação da boceta… é preciso ter passado por muito sexo para vir a ser anti-sexo, e SCUM, depois de terem experimentado tudo, estão prontas para um novo show; elas querem sair rastejando de sob a doca, mover, decolar, emergir. Mas SCUM ainda não prevalece; SCUM ainda estão nas valetas da nossa “sociedade”, que, se não for desviada da sua rota atual e se a Bomba não cair sobre ela, se precipitará para a morte.

Tédio: A vida numa “sociedade” feita por e para seres que, quando não são horríveis e depressivos, são uma chatice sem fim, só pode ser, quando não horrível e depressiva, uma chatice sem fim.

Segredo, Censura, Supressão do Conhecimento e de Idéias, e Exposições: O medo mais profundo, secreto e terrível de todo macho é o medo da descoberta de que ele não é fêmea e sim macho, um animal subhumano. Embora a amabilidade, a delicadeza e a “dignidade” sejam suficientes para evitar a sua exposição num nível pessoal, a fim de evitar a exposição geral do sexo masculino e de manter a sua posição artificialmente dominante na “sociedade”, o macho precisa apelar para:

1. Censura. Respondendo por reflexo a palavras e frases isoladas, em vez de cerebralmente ao sentido geral, o macho tenta impedir que sua bestialidade desperte e seja descoberta censurando não apenas “pornografia” como também qualquer obra que contenha “palavrões”, independentemente do contexto em que são usados.

2. Supressão de todas as idéias e conhecimentos que possam expô-lo ou ameaçar a sua posição dominante na “sociedade”. Grande parte dos dados biológicos e psicológicos é suprimida porque prova a total inferioridade do macho em relação à fêmea. Além disso, o problema da doença mental jamais será resolvido enquanto o macho mantiver o controle, porque, em primeiro lugar, os homens têm um interesse investido nela – somente as fêmeas com vários parafusos a menos permitirão que os machos tenham um pouquinho de controle sobre qualquer coisa – e, em segundo, o macho não pode admitir o papel da paternidade na origem da doença mental.

3. Exposições. O principal prazer na vida do macho – na medida em que é possível dizer que o macho obtuso, severo, consegue ter prazer com alguma coisa – é expor as pessoas. Não tem muita importância o que ele expõe, desde que as pessoas sejam expostas; isso desvia a atenção de si mesmo. Expor os outros como agentes inimigos (Comunistas e Socialistas) é um dos passatempos preferidos dele, pois com isso o que o ameaça é retirado não apenas dele mas do país e do mundo ocidental. O grande problema não é ele; e sim a Rússia.

Desconfiança: Incapaz de ter empatia ou de sentir afeição ou lealdade, pensando exclusivamente em si mesmo, o macho não tem senso de jogo limpo; covardemente, necessitando bajular a fêmea constantemente para ganhar a aprovação dela – sem a qual ele está perdido –, sempre tenso, temendo que sua bestialidade, sua masculinidade, seja descoberta, sempre precisando disfarçar, ele não pára de mentir; sendo vazio, não tem honra nem integridade – ele desconhece o que estas palavras significam. O macho, em resumo, é traiçoeiro, e a única atitude adequada numa “sociedade” masculina é o cinismo e a desconfiança.

Feiúra: Sendo totalmente sexual, incapaz de respostas cerebrais ou estéticas, totalmente materialista e ganancioso, o macho, além de impor ao mundo a “Grande Arte”, tem decorado suas cidades sem paisagens, com um esbanjamento de feiúra: ela está nos prédios (tanto por dentro quanto por fora), nos cenários, nos outdoors, nas rodovias, nos carros, nos caminhões de lixo e sobretudo em seu próprio eu podre.

Ódio e Violência: O macho se consome na tensão, na frustração de não ser fêmea, na incapacidade de jamais alcançar qualquer tipo de satisfação ou prazer; é consumido pelo ódio: não o ódio racional dirigido contra aqueles que te maltratam ou te insultam, mas um ódio irracional, indiscriminado… que no fundo é o ódio ao seu próprio eu inútil.

A violência gratuita que pratica, além de “provar” que ele é um “Homem”, serve como vazão para o seu ódio e ainda – sendo o macho capaz apenas de respostas sexuais e precisando de estímulos muito fortes para animar seu eu semimorto – lhe proporciona um pouco de excitação sexual.

Doença e Morte: Todas as doenças são curáveis, e o processo de envelhecimento e morte deve-se à doença; é possível, portanto, nunca envelhecer e viver para sempre. De fato, os problemas do envelhecimento e da morte poderiam ser resolvidos em poucos anos caso se investisse largamente numa pesquisa científica sobre eles. Entretanto, isso não é possível dentro do estabelecimento masculino, pois:

1. Os cientistas masculinos, que são muitos, fogem da pesquisa biológica, apavorados com a descoberta de que os machos são fêmeas, e mostram uma nítida preferência por programas viris, “másculos”, de guerra e morte.

2. Muitos cientistas em potencial são desencorajados a seguir carreiras científicas devido à rigidez, à chatice, às despesas, ao longo tempo necessário e à injusta exclusividade do nosso sistema educacional “superior”.

3. A propaganda disseminada por profissionais masculinos inseguros, que protegem ciosamente suas posições, para que apenas um pequeno grupo altamente seleto possa compreender conceitos científicos abstratos.

4. A falta generalizada de autoconfiança gerada pelo sistema patriarcal, que desestimula a formação científica em muitas jovens talentosas.

5. Falta de automação. Hoje já existe uma grande quantidade de dados que, se ordenada e correlacionada, revelaria a cura do câncer, de muitas outras doenças e possivelmente até forneceria a chave para a própria vida. Mas os dados são tão numerosos que sua correlação completa exige computadores de alta velocidade. A instituição dos computadores será adiada interminavelmente sob o sistema de controle masculino, pois o macho tem horror à idéia de ser substituído por máquinas.

6. A necessidade insaciável que o sistema monetário tem de novos produtos. A maioria dos poucos cientistas disponíveis que não está trabalhando em programas de morte encontra-se vinculada a pesquisas para empresas.

7. O macho gosta da morte – ela o excita sexualmente e, já morto por dentro, ele quer morrer.

8. A preferência do sistema monetário pelos cientistas menos criativos. A maioria dos cientistas vem de famílias no mínimo relativamente ricas, onde o Papai reina soberano.

Incapaz de um estado positivo de felicidade, única coisa que pode justificar a existência de alguém, o macho, na melhor das hipóteses, está relaxado, confortável, neutro, e essa condição dura pouquíssimo, pois o tédio, um estado negativo, logo se instala. Portanto, ele está fadado a uma existência de sofrimento, aliviado apenas por intervalos ocasionais e fugazes de tranqüilidade – estado que atinge apenas às custas de alguma fêmea. O macho é, por sua própria natureza, um sanguessuga, um parasita emocional e, portanto, não tem direito ético à vida, já que ninguém tem direito à vida às custas de outra pessoa.

Assim como os seres humanos, em relação aos cachorros, têm um direito prioritário à existência por serem mais desenvolvidos e dotados de uma consciência superior, também as mulheres têm um direito prioritário à existência em relação aos homens. A eliminação de qualquer macho é, portanto, um ato justo e bom, um ato altamente benéfico para as mulheres e também um ato de misericórdia.

De qualquer modo, essa questão moral conseqüentemente se tornará acadêmica, pelo fato do macho estar, pouco a pouco, eliminando a si próprio. Além de se dedicar às clássicas guerras e aos tradicionais tumultos raciais, os homens estão cada vez mais se tornando bichas ou se destruindo através das drogas. A fêmea, queira ou não queira, acabará assumindo completamente o comando, se não por outra razão, porque não terá alternativa – o macho, para todos os efeitos práticos, não existirá.

O fato de um número cada vez maior de machos estar adquirindo um interesse pessoal esclarecido acelera essa tendência; eles estão percebendo cada vez mais que o interesse da fêmea é o interesse deles, que eles só podem viver por intermédio da fêmea e que, quanto mais a fêmea for incentivada a viver, a se realizar, a ser uma fêmea e não um macho, tanto mais próximo ele estará da vida. Ele está prestes a perceber que é mais fácil e satisfatório viver por intermédio dela do que tentar se tornar ela e usurpar suas qualidades, reivindicando-as como suas, empurrá-la para baixo e afirmar que ela é macho. A bicha, que aceita a sua masculinidade, ou seja, sua passividade e total sexualidade, sua efeminação, também é mais bem servida por mulheres que sejam verdadeiramente fêmeas, pois assim seria mais fácil para ele ser macho, feminino. Se os homens fossem sábios tentariam se tornar realmente fêmeas, concentrando esforços numa pesquisa biológica intensa que os levaria à possibilidade de, por meio de operações no cérebro e no sistema nervoso, se transformarem psicologicamente, assim como fisicamente, em mulheres.

Continuar a usar fêmeas para reprodução ou reproduzir em laboratório também se tornará uma questão acadêmica: o que acontecerá quando todas as mulheres estiverem tomando pílula e não houver mais nenhum acidente? Quantas mulheres irão deliberadamente engravidar ou (se houver um acidente) permanecer grávidas? Não, as mulheres não adoram ser éguas reprodutoras, apesar de toda a baboseira dita pelas fêmeas robotizadas, que sofreram lavagem cerebral. Numa sociedade composta apenas de mulheres totalmente conscientes, a resposta será: nenhuma. Uma parcela delas deverá ser reservada compulsoriamente para servir como reprodutoras da espécie? Isso obviamente não dará certo. A resposta é a reprodução de bebês em laboratórios.

Quanto à questão de continuar ou não a reproduzir machos: do fato de que o macho, como a doença, sempre existiu entre nós não se depreende que ele deva continuar a existir. Quando o controle genético for possível – e logo será – nem é preciso dizer que deveremos produzir apenas seres completos, íntegros, e não defeitos físicos ou deficiências, inclusive as emocionais, tais como a masculinidade. Assim como seria altamente imoral a produção deliberada de pessoas cegas, o mesmo se aplicaria à produção deliberada de aleijões emocionais.

Por que produzir até mesmo fêmeas? Por que deve haver gerações futuras? Qual seria o objetivo delas? Quando o envelhecimento e a morte forem eliminados, por que continuar a reproduzir? Por que deveríamos nos importar com o que acontece quando morremos? Por que deveríamos nos importar com o fato de não haver geração mais jovem para nos suceder?

O curso natural dos acontecimentos, da evolução social, conseqüentemente levará ao total controle feminino do mundo e depois à cessação da produção de machos, para finalmente levar à cessação da produção de fêmeas.

Mas SCUM é impaciente; SCUM não se consola com a idéia de que as gerações futuras prosperarão e quer ter alguma emoção em sua vida. E, se uma grande maioria de mulheres fossem SCUM, elas poderiam adquirir o total controle deste país dentro de poucas semanas, apenas suspendendo sua força de trabalho e com isso paralisando toda a nação. Outras medidas – qualquer uma delas seria suficiente para desintegrar completamente a economia e tudo o mais – seriam as mulheres se declararem fora do sistema monetário, pararem de comprar e somente saquear e simplesmente se recusarem a obedecer a todas as leis que não acham importantes. A força policial, a Guarda Nacional, o Exército, a Marinha de Guerra e os Fuzileiros Navais juntos não poderiam dominar uma rebelião de mais da metade da população, sobretudo quando é feita por pessoas sem as quais eles não conseguem sobreviver.

Se todas as mulheres simplesmente abandonassem os homens, recusando-se a ter qualquer relação com eles, todos os homens, o governo e a economia nacional desmoronariam completamente. Mesmo sem deixar os homens, as mulheres conscientes da extensão de sua superioridade e de seu poder sobre eles poderiam adquirir controle absoluto sobre tudo dentro de poucas semanas, realizando a total submissão dos machos às fêmeas. Numa sociedade sã, o macho trotaria obediente atrás da fêmea. O macho é dócil e facilmente conduzido, submetido sem esforços ao domínio de qualquer fêmea que queira dominá-lo. Na verdade, o macho quer desesperadamente ser conduzido pelas fêmeas, quer a Mamãe no comando, quer abandonar-se aos cuidados dela. Mas esta não é uma sociedade sã, e a maioria das mulheres não é, nem vagamente, consciente de sua situação em relação aos homens.

Portanto, o conflito não é entre fêmeas e machos, e sim entre SCUM – fêmeas dominadoras, seguras, autoconfiantes, desagradáveis, violentas, egoístas, independentes, orgulhosas, em busca de emoção, que vão aonde querem, arrogantes, que se consideram preparadas para governar o universo, que já percorreram livremente os limites desta “sociedade” e estão prontas para experimentar algo muito além do que ela tem para oferecer – e as amáveis, passivas, aprovadamente “cultas”, delicadas, dignas, subjugadas, dependentes, assustadas, tolas, inseguras, Filhinhas do Papai carentes de aprovação, que não conseguem enfrentar o desconhecido, que querem continuar chafurdando no esgoto, pois pelo menos elas o conhecem, que hesitantes, querem ficar para trás junto com os macacos, que só se sentem seguras com o Poderoso Papai ao seu lado, com um homem grande e forte em quem se apóiam e com uma cara gorda e peluda na Casa Branca, que são covardes demais para encarar a horrível realidade do que é um homem, do que é o Papai, que lançaram sua sorte ao lado do suíno, que adaptaram-se à bestialidade, sentindo-se superficialmente confortáveis com ela e desconhecendo qualquer outro modo de “vida”, que reduziram a mente, os pensamentos e as opiniões ao nível do macho, que, sem senso, imaginação e perspicácia, só podem ter valor numa “sociedade” masculina, que só conseguem ter um lugar ao sol, ou melhor, na lama, como bajuladoras, alimentadoras do ego, tranqüilizadoras e reprodutoras, que são descartadas como inconseqüentes por outras fêmeas, que projetam suas deficiências, sua masculinidade, sobre todas as fêmeas e vêem a fêmea como um verme.

Mas SCUM é impaciente demais para ficar esperançosa e aguardar a neutralização do efeito da lavagem cerebral em milhões de babacas. Por que as fêmeas alegres precisam continuar a se arrastar melancolicamente ao lado de machos tediosos? Por que o destino daquela que é corajosa deve ser entrelaçado ao daquele que é covarde? Por que aquela que é ativa e imaginativa deve consultar, sobre política social, aquele que é passivo e obtuso? Por que a independente tem de ficar confinada no esgoto junto com a dependente que precisa se apoiar no Papai?

Meia dúzia de SCUM poderá, dentro de um ano, assumir o controle do país ao foder sistematicamente o sistema, destruindo seletivamente a propriedade e assassinando:

SCUM se tornarão membros da força de destrabalho, a força de sabotagem; elas arranjarão trabalhos de vários tipos e então começarão a destrabalhar. Por exemplo, as vendedoras SCUM não cobrarão pela mercadoria; as telefonistas  SCUM não cobrarão pelas ligações; as SCUM que trabalharem em escritórios e em fábricas, além de sabotar seu trabalho, secretamente destruirão o equipamento. As SCUM irão destrabalhar num emprego até serem dispensadas, então arranjarão outro emprego para destrabalhar.

SCUM substituirá à força os motoristas de ônibus, de táxi e os vendedores de bilhetes de metrô. Então irão dirigir os ônibus e táxis e distribuir para o público passagens gratuitas.

SCUM destruirá todos os objetos inúteis e danosos – carros, vitrines de lojas, “Grande Arte”, etc.

Posteriormente, SCUM assumirá as ondas de ar – redes de rádio e televisão – substituindo à força todos os empregados das estações de rádio e emissoras de televisão que tentarem impedir SCUM de entrar nos estúdios de transmissão.

SCUM irá destruir os casais – irá se intrometer entre casais mistos (macho-fêmea), onde quer que eles estejam, e separá-los.

SCUM matará todos os homens que não estiverem em seu Corpo Auxiliar Masculino. Os homens do Corpo Auxiliar Masculino de SCUM são aqueles que trabalham diligentemente para eliminar a si próprios, homens que, indiferentemente dos seus motivos, fazem o bem, colaborando com SCUM. Alguns exemplos dos homens do Corpo Auxiliar Masculino são: homens que matam homens; biólogos que trabalham em programas construtivos, em vez de se empenhar na guerra biológica; jornalistas, escritores, redatores, editores, e produtores que disseminam e promovem idéias que conduzirão à realização dos objetivos de SCUM; bichas que por seu exemplo fulgurante incentivam outros homens a se desmasculinizar, e por meio disso tornam-se relativamente inofensivos; homens que estão sempre jogando coisas fora – dinheiro, utensílios, serviços; homens que falam exatamente o que são (até agora nenhum deles fez isso), que deixam tudo em pratos limpos para as mulheres, que revelam a verdade sobre eles mesmos, que dão às fêmeas masculinas idiotas frases corretas para elas papaguearem, que lhes dizem que o objetivo principal na vida de uma mulher deveria ser acabar com o sexo masculino (para ajudar os homens nessa tarefa, SCUM realizará Sessões de Merda, nas quais todos os machos presentes farão um discurso que começa com a frase: “Sou um cocô, um humilde cocô abjeto” e depois enumerarão todos os sentidos em que eles são um cocô. Seu prêmio por fazerem isso será a oportunidade de, depois da sessão, confraternizar por uma hora inteira com a SCUM que estiver presente. Mulheres masculinas amáveis, de vida imaculada, serão convidadas a participar das sessões para esclarecerem qualquer dúvida ou mal-entendido que possam ter sobre o sexo masculino); os produtores e distribuidores de livros e filmes de sexo, que estão apressando o dia em que na tela só haverá Chupada e Foda (os machos, como os ratos que seguem atrás do flautista de Hamelin, serão atraídos pela Boceta para a sua ruína, serão vencidos e submergirão, acabando por se afogar na carne passiva que eles são); os traficantes de drogas e os advogados, que estão acelerando o desaparecimento dos homens.

Estar no Corpo Auxiliar Masculino é uma condição necessária, mas não suficiente para constar na lista de poupados por SCUM – fazer o bem não é o bastante. Para salvar seus traseiros inúteis, os homens também precisam evitar o mal. Alguns exemplos dos tipos mais detestáveis ou danosos são: estupradores, políticos e todos os que estão a serviço deles (formuladores de campanhas, membros dos partidos políticos, etc.); cantores e músicos ruins; Presidentes de Conselhos; Provedores; senhorios e latifundiários; proprietários de colheres engorduradas e de restaurantes que tocam Muzak; “Grandes Artistas”; pães-duros e caloteiros; policiais; magnatas; cientistas que trabalham em programas de morte e destruição ou para a indústria privada (praticamente todos os cientistas); os mentirosos e os falsos; disc-jóqueis; homens que se intrometem, mesmo que do modo mais insignificante, com mulheres desconhecidas; proprietários de imóveis; corretores da bolsa de valores; homens que falam quando não têm nada a dizer; homens que ficam à toa na rua e estragam a paisagem com a sua presença; vigaristas; artistas trapaceiros; homens que atiram lixo na rua; plagiadores; homens que causam às fêmeas qualquer tipo de dano, por menor que seja; todos os homens do setor publicitário; psiquiatras e psicoterapeutas; escritores, jornalistas e editores desonestos; censores, tanto do nível público quanto do privado; todos os membros das forças armadas, inclusive os convocados (Lyndon Johnson e McNamara dão as ordens, mas os soldados as cumprem) e, sobretudo, os pilotos (se a bomba for despejada, não será por Lyndon Johnson, e sim por um piloto). Caso um homem tenha comportamentos considerados bons e outros maus, ele será avaliado de modo geral, subjetivamente, para determinar se, no saldo final, sua conduta é boa ou má.

É muito tentador eliminar também, junto com os homens, as “Grandes Artistas”, as mentirosas e falsas, etc., mas isso não seria sensato, pois para a maioria das pessoas não ficaria claro que a fêmea morta era um macho. Todas as mulheres têm um pouco de delatoras, umas mais outras menos, mas isso decorre da convivência vitalícia com os homens. Eliminando-se estes, as mulheres terão um desenvolvimento melhor. Elas são capazes de aperfeiçoamento; os homens não, embora seu comportamento possa melhorar. Quando, em plena atividade, SCUM estiver na cola deles, seu comportamento logo melhorará.

Concomitantemente com a sabotagem, o saque, a separação de casais, a destruição e a matança, SCUM irá recrutar. Assim, será composta de recrutadoras, os corpos de elite – as ativistas linha-dura (sabotadoras, saqueadoras e destruidoras) e a elite da elite: as matadoras.

Cair fora não é a resposta; sabotar sim. A maioria das mulheres já está excluída, elas nunca estiveram dentro. A exclusão dá o controle àquelas poucas que se impuseram; a exclusão é exatamente o que os líderes do estabelecimento querem; é a arma do inimigo; fortalece o sistema em vez de miná-lo, pois se baseia inteiramente na não-participação, na passividade, na apatia e no não-envolvimento da massa de mulheres. Cair fora, entretanto, é uma política excelente para os homens e SCUM irá incentivá-la entusiasticamente.

Olhar para o seu próprio interior em busca de salvação, contemplar o próprio umbigo, não é a resposta, como as Pessoas Excluídas nos levariam a acreditar. A felicidade está fora de nós e é alcançada pela interação com os outros. A generosidade, e não a preocupação consigo mesmas, deve ser o objetivo das pessoas. O macho, que só é capaz de pensar em si mesmo, faz de um defeito irremediável uma virtude e estabelece a autocontemplação não só como um bem, mas como um Bem Filosófico, e assim ganha a reputação de profundo.

SCUM não fará piquetes, demonstrações, marchas ou greves para atingir seus objetivos. Essas táticas são usadas por senhoras amáveis, bem-educadas, que escrupulosamente adotam apenas esse tipo de ação, pois são garantidamente ineficazes. Além disso, só as mulheres masculinas decentes, de vida limpa, altamente treinadas em submergir na espécie, agem na base da multidão. SCUM é composta de indivíduos, não é uma multidão, uma bolha. Em qualquer situação, só será empregado o número de militantes SCUM necessário à sua realização. Além disso, sendo SCUM tranqüila e egoísta, não se sujeitará a levar uma cacetada na cabeça, dada por um policial; isso acontece com senhoras amáveis da classe média, “privilegiadas e educadas”, que valorizam muito a tocante fé na bondade inerente do Papai e dos policiais. Se SCUM alguma vez marchar, será sobre a cara idiota e nauseante do Presidente; se SCUM atacar, será no escuro com uma lâmina de seis polegadas.

SCUM sempre se baseará na ação criminal em oposição à desobediência civil, ou seja, em oposição a transgredir abertamente a lei e se deixar prender a fim de chamar atenção para uma injustiça. Essas táticas reconhecem a justiça do sistema como um todo e são usadas apenas para modificá-lo ligeiramente, para mudar leis específicas. SCUM se opõe ao sistema inteiro, às próprias idéias de lei e de governo. SCUM quer destruir o sistema, e não simplesmente conseguir alguns direitos dentro dele. Além disso, SCUM – sempre egoísta, sempre tranqüila – tentará evitar a detecção e a punição. E pretende sempre ser furtiva, sorrateira, clandestina (embora o trabalho das assassinas SCUM venha sempre a ser reconhecido, por sua alta qualidade).

A destruição e os assassinatos serão seletivos e bem determinados. SCUM é contra os tumultos enlouquecidos, indiscriminados, sem nenhum objetivo claro e nos quais muitos dos seus próprios militantes são eliminados. SCUM jamais irá instigar, incentivar ou participar de tumultos de qualquer tipo ou de qualquer forma de destruição indiscriminada. Ela se aproximará de sua presa em silêncio, tranqüila e furtivamente, e então matará com frieza. A destruição nunca será de tal modo que leve ao bloqueio das vias necessárias ao transporte de alimentos e outros artigos essenciais, à contaminação ou ao corte do fornecimento de água, ao bloqueio de ruas e do tráfego a ponto de as ambulâncias não poderem avançar ou à inviabilização do funcionamento dos hospitais.

SCUM continuará destruindo, saqueando, sabotando e matando até que o sistema dinheiro-trabalho não exista mais e a automação tenha sido totalmente instaurada ou até que um número suficiente de mulheres coopere com SCUM para tornar a violência desnecessária à consecução desses objetivos, ou seja, até que um número suficiente de mulheres destrabalhe ou deixe de trabalhar, comece a saquear, deixe os homens e se recuse a obedecer a todas as leis inadequadas a uma sociedade verdadeiramente civilizada. Muitas mulheres se corrigirão, mas muitas outras, rendidas de longa data ao inimigo, tão adaptadas à bestialidade e à masculinidade, que aprenderam a gostar das restrições e limitações, que não sabem o que fazer com a liberdade, continuarão a ser bajuladoras e capachos, do mesmo modo como os camponeses das plantações de arroz continuam a ser camponeses das plantações de arroz quando um regime é substituído por outro. Algumas das mais instáveis irão choramingar e ficar emburradas, atirando no chão seus brinquedos e panos de pia, mas SCUM continuará a avançar implacavelmente sobre elas.

Uma sociedade totalmente automatizada pode ser alcançada de modo muito simples e rápido, desde que a população pressione nesse sentido. Os projetos para ela já existem, e sua construção levará apenas algumas semanas com milhões de pessoas trabalhando. Mesmo fora do sistema monetário, todas as pessoas ficarão muito contentes em arregaçar as mangas e construir uma sociedade automatizada; que vai assinalar o início de uma nova era fantástica, e a sua construção será feita num clima de comemoração.

A eliminação do dinheiro e a instauração plena da automação são elementos básicos para todas as outras reformas de SCUM; sem elas, as outras não poderão existir; com elas, as outras ocorrerão muito rapidamente. O governo desmoronará automaticamente. Com a completa automação, todas as mulheres poderão votar em todas as questões diretamente, por meio de uma máquina eletrônica de votação que terão em casa. Uma vez que o governo se ocupa quase totalmente com a regulação dos assuntos econômicos e com a legislação sobre questões puramente privadas, a eliminação do dinheiro e, com ela a eliminação dos machos que querem legislar a “moralidade”, não deixará praticamente nenhuma questão para ser votada.

Depois de eliminar o dinheiro não haverá mais necessidade de matar os homens; eles serão privados do único poder que têm sobre as fêmeas psicologicamente independentes. Eles só serão capazes de se impor às mulheres capachos, que gostam de ser dominadas. As outras estarão ocupadas solucionando os poucos problemas que ainda não foram resolvidos e depois planejando seu programa para a eternidade e Utopia – renovando totalmente os programas educacionais,  que possibilitarão a  milhões de mulheres serem preparadas em poucos meses para o trabalho intelectual de alto nível, que hoje exige anos de formação, (isso pode ser feito facilmente, já que o nosso objetivo educacional é educar, e não perpetuar uma elite acadêmica e intelectual); resolvendo os problemas da doença, da velhice e da morte e reprojetando radicalmente nossas cidades e bairros. Muitas mulheres continuarão durante algum tempo a pensar que gostam dos homens, mas à medida que forem se acostumando à sociedade feminina e se concentrando em seus projetos, elas acabarão por perceber a total inutilidade e banalidade do macho.

Os poucos homens remanescentes poderão passar seus dias minguados viajando com drogas, se pavoneando como drag queens ou observando passivamente as poderosas fêmeas em ação, satisfazendo-se como espectadores, vivendo por meio delas (*), ou procriando no pasto com as bajuladoras; ou podem ainda ir até o acolhedor centro de suicídio mais próximo, onde serão levados tranqüila, indolor e rapidamente à morte por inalação de gás.

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(*) Nota de rodapé: Será eletronicamente possível para ele se sintonizar em alguma fêmea específica que ele queira para seguir em detalhes cada movimento dela. As fêmeas, de modo gentil e prestativo, consentirão com isso, ao passo que isso não as prejudicará de maneira nenhuma e será um modo maravilhosamente bom e humano de tratar seus desafortunados camaradas em desvantagem.

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Antes da instauração da automação, da substituição dos homens pelas máquinas, o macho será útil para a fêmea, a servirá, satisfará a todos os seus caprichos, obedecerá a todas as suas ordens, será completamente subserviente a ela, existirá em perfeita obediência à sua vontade, ao contrário da atual situação, totalmente aberrante, degenerada, na qual os homens – além de não terem nenhuma existência, congestionando o mundo com a sua presença ignominiosa – são alimentados em seu ego pela massa de mulheres que se curvam diante deles, milhões de mulheres que veneram o Bezerro de Ouro, o cão levando seu dono pela coleira, quando na verdade o macho, quase uma drag queen, é menos miserável ao ter seu caráter canino reconhecido – não lhe fazem exigências emocionais incompatíveis com a realidade e as decisões são tomadas pelas fêmeas em conjunto. Os homens sensatos querem ser pisoteados, esmagados e triturados, tratados como a insignificância, a imundície que são, querem ver confirmada a sua repulsividade.

Os homens doentes, irracionais, aqueles que tentam se defender de sua repugnância, quando virem SCUM avançando em direção a eles, se agarrarão aterrorizados à Grande Mamãe com suas Grandes Tetas Balouçantes, mas as Tetas não o protegerão de SCUM. A Grande Mamãe vai estar agarrada ao Grande Papai, que estará na esquina se borrando nas calças. Os homens racionais, entretanto, não irão chutar, lutar ou protestar em desespero. Eles simplesmente se sentarão tranqüilos, se divertirão com o espetáculo e flutuarão nas ondas do seu desaparecimento.

– fim –

06/02/2010 at 18:20 3 comentários


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